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Carmo Vicente 9 h · Texto do Major General, Rui Luis Cunha, sobre a II Guerra Mundial!

 

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Texto do Major-General, Rui Luís Cunha.
Em resposta a um escrito foleiro da comentadeira HFG em que, entre outros disparates, referia que a URSS só tinha vencido os nazis graças à ajuda americana, anexo um esclarecimento histórico, que espero bem que alguém faça chegar à fulana, embora não acredite que o seu neurónio consiga absorver tanta informação:
"Um mito comum, de proveniência revisionista, é o da preponderância do famoso programa “Lend-Lease”, a dita “altruísta” ajuda americana sem a qual, supostamente, a URSS nunca teria vencido. Pois bem, desmistifiquemos esse mito com recurso a simples factos:
1 - O Lend Lease foi um projeto de lei com vista a fortalecer os interesses de segurança americanos fora das suas fronteiras. O programa decretado consistia em apoio material, sobretudo militar, mas também financeiro e alimentar a países que “apresentassem interesse” aos EUA na esfera da segurança nacional, pelo que os beneficiários teriam de devolver a soma dos valores da ajuda material em dinheiro. Por outras palavras: de altruísmo, não existia absolutamente nenhum no Lend-Lease;
2 - A ajuda militar americana não pode deixar de ser acompanhada por uma “pequenina” grande nuance: os EUA, durante anos, apoiaram e financiaram a Alemanha nazi. E mesmo durante o período do Lend-Lease e depois do início da guerra, em 1 de setembro de 1939, continuaram a financiar Hitler e os aliados do Eixo. O próprio futuro presidente dos EUA, Truman, afirmou, no verão de 1941: “se virmos que os russos estão a ganhar, devemos ajudar mais os alemães, e se virmos o contrário, devemos ajudar os russos. É conveniente para nós que se matem uns aos outros o mais possível.”
3 - O Lend-Lease representava, a nível de produção material, de apoio financeiro, de fornecimento alimentar e de apoio militar, 94% do exército da “Résistance”, 56% do Exército Britânico e 28% do Exército Vermelho. Significativo? Sem dúvida. O principal factor decisivo? Nem por isso. Afinal de contas, os números não mentem: tanto no caso francês como no britânico, a percentagem total proveniente do apoio americano era avassaladora, principalmente no caso francês. Contudo, não é menos verdade que ambos os exércitos, juntamente com o americano, eliminaram um total de 176 divisões do exército alemão em toda a guerra. A URSS, por sua vez, com um apoio a representar 28% de exatamente os mesmos indicadores, eliminou 607 divisões do Exército Alemão em toda a guerra, mais do que o triplo dos restantes;
4 - Por fim, quiçá o factor mais importante e acerca do qual mais valerá a pena refletir: os EUA apenas começaram a reduzir, progressivamente, o fornecimento da Alemanha e das restantes forças do Eixo após, precisamente, a Batalha de Estalinegrado. Foi também a partir desse período que a URSS começou a receber cada vez mais apoio, fosse ele militar, financeiro, industrial ou alimentar, perfazendo os ditos 28% anteriormente mencionados. Até lá, nos dois anos mais sangrentos e decisivos da guerra – 1941 (quando os alemães estiveram às portas de Moscovo) e 1942 (onde, em Novembro, começou a contraofensiva em Estalinegrado)
– o apoio americano à URSS nunca representou mais do que 0,7% e 12%, respectivamente. Por outras palavras: lucrando com os dois lados e percebendo que um deles não venceria, os americanos alteraram o rumo dos seus financiamentos. Se a Alemanha tivesse vencido em Estalinegrado, os EUA, do lado de lá do oceano, teriam tido todo o gosto em continuar a lucrar com o apoio à Wehrmacht. No entanto, graças ao heroico Exército Vermelho, tal não aconteceu."
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1 comentário
  • Jose Monteiro
    Mais uma vez um militar português teve que corrigir quem, por ignorância ou provocação, tenta inverter os dados daquela que foi a maior carnificina e desastre material do século XX! Obrigado por mais esta lição a juntar ao que já conhecia do muito que tenho lido! Pedagogia não falta e dados valorativos abundam e desfazem idéias perversas!

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