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Sobrinho Simões: "Estamos a esticar demais a longevidade e o envelhecimento"

 

Sobrinho Simões: "Estamos a esticar demais a longevidade e o envelhecimento"

Patologista e investigador defende que é preciso mais qualidade do que maior duração de vida.

Já foi eleito o patologista mais influente do Mundo e nem a reforma ou a pandemia travaram o seu apego ao trabalho, valor que considera maltratado em Portugal. Crítico da nossa falta de organização coletiva e da ausência de ideias fortes para o país, assume que no plano individual escolhe a esperança. Mesmo que os tempos de incerteza espalhem excesso de medo e de depressão.

Há um ano, iniciávamos a vacinação e acreditávamos que estaríamos prestes a vencer a pandemia. A ciência falhou ou exigimos-lhe demasiado?

A ideia de vencer é uma coisa que temos a mania de usar, porque somos muito binários. A maior parte das coisas no Mundo não é ganhar nem perder, é ver se se controla. E nós sabíamos que íamos controlar, mas nunca venceremos de forma absoluta. Como patologista, também não acho que vamos curar o cancro, mas tenho a certeza de que vamos cada vez mais controlar. Estou convencido de que daqui a 10, 20 anos, mais de 95% dos casos de cancro são controláveis, mas não são curáveis. Portanto, não vamos vencer, irrita-me essa ideia de vencer.

Criámos uma expectativa demasiado elevada em relação à intervenção da ciência?

Claro, porque era algo que desconhecíamos. Ainda por cima não são seres vivos, os vírus. Na gripe, a vacina também nunca resolveu totalmente. Desse ponto de vista, a ciência foi estupenda, foi rápida e eficiente, mas não resolve o problema da pessoa, porque somos todos diferentes uns dos outros e não sabemos como as próprias partículas víricas evoluem. Na gripe, todos os anos fazemos uma vacina. Por que raio achámos que íamos encontrar uma solução para sempre? Temos permanentemente a possibilidade de ter novas variantes.

Como houve essa expectativa elevada, teremos o risco de a população começar a desacreditar e desmobilizar na vacinação?

Não sei o suficiente disso. Nós somos muito maus coletivamente. Somos melhores nas árvores do que nas florestas e estamos a ter excesso de medo e excesso de ansiedade e de depressão. As pessoas estão assustadas. Isto aconteceu há muitos anos com determinadas infeções, mas não havia a capacidade que hoje há de influenciar toda a gente. Sem ofender os jornalistas, estamos a ter um jornalismo que não é o melhor, porque estamos a ter menos capacidade de mediação do que tivemos durante anos. Temos a pressão do número de casos, números que deveriam ser mediados por uma capacidade de bom senso.

Mas os números vêm de cima. A Direção-Geral da Saúde não deveria já ter parado de divulgar os números diários dessa forma?

É uma boa pergunta, mas não sei. Eu sou um tipo da árvore, eu diagnostico o sr. Silva ou o sr. Simões, a minha relação é só com o meu médico que me mandou o caso para diagnosticar. O que devemos dizer com tom certo? Alertar, prevenir, mas sem assustar é dificílimo, sobretudo em sociedades como a nossa em que temos muito pouca solidez científica.

Acredita que a ciência ganhou efetiva relevância ou apenas a valorizámos no sentido pragmático de ter respostas?

As duas coisas são verdadeiras. Nós somos muito bons na ciência pura e dura, nos aspetos físicos, de estudar e desenvolver uma vacina. Mas tudo quanto é relação social, as respostas coletivas, a organização do sistema, não está a ser boa. Nós temos a mania de que a ciência é só a pura e dura. A ciência social é tão ou mais importante e infelizmente não temos, em Portugal e em muitos países, por exemplo, psicologia social. As ciências do lado das humanidades estão a falhar. E a saúde é muito complicada, porque não dá votos nem dinheiro. Vivemos numa sociedade que depende, para fazer dinheiro e para ter votos, da doença.

Pode traduzir melhor em que sentido?

Se eu disser a alguém que tem de comer melhor e fazer uma dieta, quem é que ganha com isso? Se eu tiver uma pastilha para emagrecer, imediatamente dá dinheiro. O político o que quer é tratar doentes. Não ganha votos se disser que estamos todos felizes e saudáveis.

Como tem lidado, pessoalmente, com esta pandemia? Tem limitado contactos?

Com medo. Desde que me reformei, trabalho de manhã no S. João e à tarde no IPATIMUP. Continuei a ir, a não ser numa semana em que o meu filho mais velho me disse que eu estava muito velho e era uma vergonha ir trabalhar [risos]. Depois, no meu serviço foram todos vacinados, exceto eu, porque era reformado.

Falou do medo. E já tinha lidado muito de perto com a fragilidade.

Eu tenho medo de tudo. Da minha idade, conheço poucos tipos tão medrosos como eu. Em relação a tudo e também em relação às doenças. Eu que sou especialista de cancro e sei que é relativamente fácil de tratar, nos casos simples e pouco avançados, tenho muito medo do cancro, porque sei que há um elemento de sorte/azar. A ciência evoluiu imenso, mas há uma percentagem de casos em que as pessoas têm azar.

É um medo de lhe falhar a sorte?

Claro. Nós temos medo porque desconhecemos. Foi algo de novo e percebemos que éramos mais frágeis do que acreditávamos, porque a sociedade tinha dado a ideia de que estávamos a caminho de não morrer, o que é uma estupidez.

Não havia alguma arrogância na forma como achávamos que poderíamos ser imortais?

Acho que sim. Onde fomos mais arrogantes, horrível, foi quando as pessoas acharam que iam resolver o problema da morte. Passámos a ter uma longevidade enorme e estamos a esticar demais a longevidade e o envelhecimento.

Demais por falta de qualidade?

A gente sabe que mais cedo ou mais tarde podemos ter morbilidades, mas há algo muito pior, que é a fragilidade da dependência, a solidão e a insegurança. Isto vai aumentar e, para mim, os dois grandes problemas que temos é a pobreza - e em Portugal, nesta altura, a quase pobreza - e a outra coisa é não estarmos a perceber que vamos ter de lidar com a longevidade. Com muitas pessoas que têm perturbações mentais, solidão, sofrimento. Devíamos bater-nos por ter melhor qualidade e não maior duração da vida.

Como olha para as respostas do Serviço Nacional de Saúde (SNS)? Percebemos o valor do serviço público que temos?

Tivemos um serviço muito bom. Fomos estupendos na resposta à pandemia, excecionais. Não tem só a ver com médicos, é com enfermagem, técnicos, psicólogos; tivemos uma resposta excecional, numa altura em que já tínhamos muito pouco investimento no SNS. Não tenho nada contra a saúde no setor privado e social, e o setor social é extraordinário. Mas ninguém pense que, em Portugal, podemos deixar de ter uma aposta no público - nas instituições públicas e nas políticas públicas. Sem isso, a saúde e a educação estão lixadas.

Mas pelo menos no plano dos princípios valorizámos o SNS?

Agudamente foi. O português é muito bom a responder a catástrofes. Somos chatos, porque depois não conseguimos continuar e não temos decisão estratégica. E reparem que piorou o tratamento de outros doentes.

Aliás, um estudo recente estimou que as falhas nos rastreios tenham deixado 4500 cancros por diagnosticar no último ano. Como patologista, vê razões para preocupação?

É mau, é mau. Mas não é só o cancro, são as doenças cardíacas, a obesidade, a diabetes, doenças reumáticas. Fomos excecionalmente bons a responder a um problema, mas é preciso ver o que vai acontecer, porque isto vai continuar.

Os portugueses exigirão mais dos poderes políticos para o SNS?

Vão exigir. Mas há o problema do comportamento, a dificuldade em passar para as atitudes. Temos hoje uma grande capacidade de divulgar mensagens, mas faltam ações concretas. A nossa sociedade tem pouca capacidade estratégica de pensar o que vem e, infelizmente, como não damos valor ao trabalho, estamos muitas vezes a trabalhar em condições difíceis e mal pagas.

Correspondemos ao esforço dos profissionais de saúde nesta crise? Temas como a exclusividade deviam ter prioridade?

O salário dos profissionais é muito mal valorizado, não apenas na saúde, mas noutros setores. Mas estou de acordo na necessidade de ter regras para diminuir a promiscuidade. Não sou a favor de exclusividade para toda a gente, sou a favor em lugares de chefia. Não estou a ver que o tipo do supermercado "X" também trabalhe no supermercado "Y". Ainda por cima, fizemos a estupidez de passar para o horário das 35 horas, que foi mortal. Como têm urgências e consultas, as pessoas nos sítios mais diferenciados não têm tempo para estar nos serviços e discutir entre si. Os hospitais deveriam ser recompensados não por mais consultas, mas por melhores consultas. É sempre o consumismo, é uma indústria também.

Tem falado muito em comportamentos. Acredita em marcas positivas, coletivamente, desta pandemia?

Sou um tipo muito desgraçado, porque não falo com pessoas, praticamente estou ao microscópio a ver casos que me mandam. E, portanto, não sei. A sensação que tenho é que nós não somos bons em respostas coletivas. Nos comportamentos individuais estamos a melhorar muito. Ainda precisávamos de melhorar muito mais. Coletivamente, não. Porque somos muito individualistas e minifundiários. Nós, portugueses, somos generosos, somos simpáticos e gostamos de pessoas. Portanto, será que conseguimos ter um compromisso sociopolítico, que é aquilo que se chama a reorganização da esperança?

Não deveria haver também um compromisso sociopolítico para o mundo na vacinação, uma vez que já estamos a vacinar crianças e há uma parte substancial do Mundo sem capacidade?

Uma criança na África subsariana não é igual, do ponto de vista da resposta imunitária, à europeia. Temos de perceber que é muito difícil estes compromissos sociopolíticos quando tem a ver com saúde. Em relação a doenças que dependem de agentes como o clima ou os vírus, é muito difícil extrapolar. Nós não conseguimos resolver as migrações, vamos resolver agora as vacinas? Em Portugal, precisamos imenso de imigração, porque precisamos de ter gente nova. A migração é a coisa mais extraordinária que pode haver, se for bem feita.

Há alguma demagogia nos alertas sobre desigualdade a nível mundial?

Nós somos muito assimétricos. Nós, continente, depois países, depois dentro, em Portugal, somos também muito assimétricos. É verdade que há sempre uma hipocrisia, porque quem tem o acesso ao poder é geralmente uma minoria. E essa minoria tem um discurso hipócrita, que é dizer "ah não, nós devíamos fazer!". Mas então façam!

Acredita que o projeto europeu está esgotado ou é um europeísta convicto?

Acho que não temos solução. Mas atenção, deixamos de viver à custa dos outros. Parte do nosso projeto europeu foi o resultado de termos explorado ao longo de centenas de anos a Ásia, a América do Sul e a África. Sem ofensa, o bem-estar da Europa em grande parte foi o resultado da exploração de outros continentes. E, portanto, a Europa tem que habituar-se a viver com menos, de uma forma mais simples. Temos um problema de consumismo, que é predador, o consumismo predador é péssimo e a Europa não o pode fazer.

Tenciona votar no dia 30 de janeiro?

Voto sempre. A convicção pode ser maior ou menor, mas voto sempre. Acho que a nossa democracia representativa está muito fragilizada, por variadíssimos motivos e não é só em Portugal, é por toda a Europa, e provavelmente temos que reforçar centros de decisão fora dos partidos, por exemplo na sociedade civil. Eu gostava muito de voltar a ter uma ideia do público que fosse o resultado de um compromisso de regime que não dependesse agora do partido A, B ou C, porque estes partidos, tal como estão, não estão a resolver os problemas da sociedade. Portanto, é claro que vou votar. E tenho a certeza de que não temos alternativa melhor, mas temos que evoluir. Temos que ter alguma ideia, a organização da esperança. Voltamos à organização da esperança.

Se fosse decisor, qual seria para si a prioridade absoluta neste arranque de ano?

A educação, sem dúvida nenhuma. As creches deviam ser gratuitas. E, depois, a saúde e o trabalho. Mas, caramba, para mim, a educação. E o nosso grande problema é a pobreza e, em Portugal, a quase pobreza.

Entramos num novo ano mergulhados em incerteza. Escolhe a esperança ou sente que há razões para o pessimismo?

A minha análise é sempre pessimista. Depois, para a ação, é sempre otimista. Há esperança, então quer dizer... eu tenho netos!

Essa esperança mantém-nos despertos e ativos?

Claro! E continuo a ir às escolas e vou chatear os meus ex-alunos, porque é sempre uma resposta muito individual, porque nós não conseguimos criar organização da sociedade que seja suficientemente sólida para a gente ter uma esperança coletiva. Mas também não temos alternativa.

Ouça a entrevista completa este domingo ao meio-dia na TSF

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