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ANTES DA IDA PARA ANGOLA, NA EPA-ESCOLA PRÁTICA DE ARTILHARIA, VENDAS NOVAS! DE CANTO CORAL, A ÚLTIMA AULA

 ANTES DA IDA PARA ANGOLA, NA EPA-ESCOLA PRÁTICA DE ARTILHARIA, VENDAS NOVAS! DE CANTO CORAL, A ÚLTIMA AULA A partir de certa altura, que não recordo com precisão, o que também não acho importante, uma vez por semana ou por vezes duas, um segundo sargento de Cavalaria, deslocava-se à Escola Prática de Artilharia, para dar umas aulas de Canto Coral, aos alunos do Curso de Sargentos Milicianos e aos que formavam a Bateria de Referenciação, sendo o primeiro ano que esta existia.
O Curso de Oficiais Milicianos já dispunha de um espaço novo, ou quase, com um edifício de dois pisos: no rés-de chão funcionavam a cozinha, refeitório e uma arrecadação que era também o depósito das armas e munições e no andar superior eram a camarata e uma pequena sala de leitura e alguns jogos!
As aulas de canto coral eram dadas numa parte da parada, situada entre as casernas da Bateria de Referenciação e da primeira bateria do Curso de Sargentos Milicianos!
A seguir ao pequeno-almoço de sexta-feira formávamos em “U”, com os alunos do CSM, frente a frente formavam os lados do “U” e a Referenciação era a base!
Quando a formatura estava terminada, com algumas indicações do maestro, obtido o silêncio, o maestro explicava o que iriamos ensaiar naquela aula! De seguida entoava as primeiras notas do tema, que apoiava ainda com aquele pequeno instrumento, a harmónica!
Além destes saberes tinha um tique: o pst, pst, que era a última nota da sua intervenção!
Decorria o ano de mil novecentos e sessenta.
O cabo Calapez, artista gráfico por vocação e militar efetivo, certamente por falta de saída para a sua arte, na véspera, pelo final do dia, apresentava o seu trabalho, bem colorido, desenhado e pintado sobre papel de cenário, afixado em pequenos expositores que eram colocados em lugares estratégicos onde todos pudessem ver e preparar-se para o que o Calapez graficamente ordenava: exercícios de campo, com as verdes ervas e o Sol a brilhar; as caminhadas o militar a caminhar em grupo, ou em formatura quando era formatura em parada! Na véspera do canto coral lá estava o fardado, a expelir notas musicais que subiam até se perderem!
Era um trabalho didático o do Cabo Calapez.
À hora marcada pelo artista, sem falta, lá estava o maestro no espaço habitual. Mandava formar e em breves minutos lá estávamos, os cerca de trezentos futuros cantores.
Escolhia o hino – eram quase só hinos – que iriamos ensaiar


e a liturgia começava: o hino da Artilharia! Dava o tom das notas iniciais, passava à gaitinha e logo o psst,psst e segundos depois a ordem de “todos agora” e ainda mais depressa dava sinal de parar com o psst, psst mais enérgico, vinha o pronto, pronto para interromper!
Para recomeçarmos de imediato, uma, duas, três vezes e até mais!
Por razões que não ficariam bem neste retrato, sempre fui um mau analisador de música! Não percebi bem porquê, dei comigo, a certa altura, a achar agradável de ouvir, cerca de trezentos homens a cantar em simultâneo!
E melhorava quando, em campo aberto, no Polígono, apenas duas ou três escolas, ou turmas, a fazê-lo, sob a orientação do maestro psst, psst e aumentava de qualidade e harmonia quando era o hino da Artilharia, de que hoje, passados tantos anos, não recordo uma única nota nem mesmo uma única palavra da letra!
Um dia, de não sei que mês, tudo parecia indicar que iria ser semelhante aos anteriores, em que havia canto coral. Não foi. Algo se passou que não estava previsto e ainda hoje, décadas decorridas sobre ele, me interrogo e resposta não encontro.
O pessoal parecia mais alegre, mas atribuo a ser sexta-feira! O sargento, pelo contrário, parecia tenso, mas teria as suas razões: sexta-feira e ter que deixar os seus obis e cavalos e vir para Vendas Novas ensinar a cantar, como se eles não soubessem!
Tudo se iniciou normalmente: a formatura em U, a gaita a dar o tom, as palavras, bem moduladas, a saírem da cavidade bocal do sargento de cavalaria.
De um ponto incerto da formatura se ouviram-se, pelo menos duas vezes, o psit, psit e o pronto, pronto, imitação irreverente, vinda de algum divertido, tentando roubar o posto de trabalho do maestro!
De imediato, colocado entre os abertos braços do U da formatura, surge o cavaleiro maestro, assumiu a posição de sentido e da boca do mestre, sem melodia, saem a ordem, furiosa: atenção à voz de comando!
- Formatura, sen’oppp!
O ruido de duzentos e cinquenta, ou mais, pares de botas soou e o silêncio se instalou, logo interrompido pela voz do mestre, repetindo a liturgia com que iniciava todas as aulas, apenas alterada pela posição de sentido em que nos mantinha.
Agora para todos! Batuta ao alto, desceu e ali se suspendeu!
Não foi o que sucedeu: apenas um som, perdido, num ponto incerto do U formado, se ouviu, de uma das cerca de trezentas bocas em sentido e que de imediato silenciou!
Aparentando uma calma que estava já a léguas de distância, o sargento fez uma segunda tentativa, mas desta vez nem o desgarrado som surgiu!
Mandou um dos faxinas chamar o oficial dia à parte antiga da unidade! Trocou poucas palavras, que se não ouviram, com o maestro, depois de dar ordem de à vontade à formatura.
Fez um pequeno e pouco convincente discurso e a aula recomeçou, por pouco mais tempo e terminava com o Hino Nacional, como sempre.
O maestro, com ar desalentado e frágil, atabalhoadamente quis iniciar, com a formatura na posição de à vontade, dada pelo oficial de dia! Errado!
Tal como sucedera no inicio, uma onda de silêncio percorre a formatura e um bater de calcanhares quase sem falhas informou que estávamos na posição de sentido e assim cantámos, até final, o Hino Nacional! Errado!
Se na posição de sentido se não pode falar ou sequer mexer, seja qual for a origem da ordem!
O que resultou desta atitude coletiva foi a individual do sargento, não mais voltar a Vendas Novas para ensinar canto coral.
E o cabo Calapez não mais pintou e publicitou, em papel de cenário, o fardado a libertar notas musicais que subiram, subiram, e se perderam sem achar o destino! Reis Caçote

Um pesado silêncio caiu sobre a parada e um frémito, mais psíquico que físico, percorreu todos os militares em sentido e que assim se mantinham.

Dezº 2016-digit







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