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Quando ouvi Antony Blinken, secretário de Estado de Biden, afirmar que os Estados Unidos (EUA) tinham traçado um plano de paz com o qual Israel concordara e, que agora, esperavam o mesmo do Hamas, fiquei ligeiramente desconfiado. Só para não dizer que sorri.

 Quando ouvi Antony Blinken, secretário de Estado de Biden, afirmar que os Estados Unidos (EUA) tinham traçado um plano de paz com o qual Israel concordara e, que agora, esperavam o mesmo do Hamas, fiquei ligeiramente desconfiado. Só para não dizer que sorri.

É, no mínimo, estranho que seja uma das partes do conflito a elaborar uma proposta para o fim desse mesmo conflito. E mais estranho seria se esse documento fosse sequer algo justo para ambos os lados.

E antes que a discussão se alargue, digo sim: os EUA são uma das partes integrantes deste conflito no Médio Oriente. Aliás, de quase todos aqueles de que me lembro na região. Ou com as botas no terreno – como aconteceu no Kuwait, Síria e Iraque – ou, no caso israelita, patrocinando com armas, dinheiro, soldados e porta-aviões por perto, as chacinas feitas durante décadas ao povo da Palestina.

Benjamin Netanyahu. Foto: DR

Netanyahu discursa regularmente no Senado norte-americano, onde recebe palmas de conforto e donativos para derramar sangue palestiniano. Nesse sentido, é difícil ver os EUA noutro papel que não o de apoiante ao que se vai passando em Gaza.

Anteontem, dia 20 de Agosto, julgo que no novo canal informativo NOW, passou uma reportagem sobre os seis corpos de reféns resgatados pelo exército israelita. Estavam mortos, entenda-se, e por isso tiveram direito a nome, idade, fotografia e entrevista com as famílias que falaram sobre eles e sobre o abandono a que foram votados pelo governo de Netanyahu – recordemo-nos que o governo israelita nunca quis qualquer acordo para a troca de reféns pelas centenas de palestinianos que vão apodrecendo nas suas prisões.

Parece-me um óptimo princípio o de que a vida humana tenha relevo e importância, que seja respeitada tanto enquanto o coração bate como a partir do momento em que os olhos se fecham. Ao contrário da Helena Ferro Gouveia, que é uma das vozes mais activas em Portugal na defesa das forças ocupantes em Gaza, eu acho que o respeito pela vida é devido a um refém israelita, a um combatente do Hamas, a um soldado das Forças de Defesa de Israel (IDF), a um general russo ou a um ucraniano do batalhão Azov. Morrer em guerras que somente servem aos interesses de países imperialistas ou defendem a economia de alguns lobbys, é sempre um desperdício, venha de que lado vier.

Finda a reportagem dos reféns, surgiu outra sobre os dois últimos bombardeamentos a escolas em Gaza. No primeiro, morreram 18 pessoas e, no segundo, mais 10. Há imagens de pedaços de carne sem qualquer identificação a serem arrastados dos escombros, e também de uma senhora, aos gritos e em pânico, dizendo que estavam ali quietos, julgando estarem seguros e, de repente, morreram todos. A mesmíssima reportagem que todos vemos em Gaza e na Cisjordânia desde o dia em que nascemos. Não há nomes, muito menos famílias ou histórias de vida. Há apenas mais 28 para somar aos outros 44 mil mortos, números assim redondos para parecerem mera e fria estatística. Crianças, mulheres, combatentes, homens que estavam por ali, civis que passavam, famílias que julgavam estar em zona segura. Não interessa, ninguém quer saber quem eles são. São 44 mil mortos em 319 dias, uma média de 138 por dia, dizimados por bombas.

“Destruição metódica de um grupo étnico ou religioso pela exterminação dos seus indivíduos” é a forma como o dicionário descreve genocídio. Se alguém encontrar alguma diferença para o que está a acontecer em Gaza, pode fazer o favor de informar.

Lembram-se quando o mundo parou, durante dois anos e meio, porque em cada país morriam 20 ou 30 pessoas, diariamente, com complicações respiratórias? Pois… em Gaza isso não acontece, respiram todos bem, pelo menos até lhes cair uma bomba no telhado.

Aquilo que eu imagino quando ouço falar num plano de paz para a região é, obviamente, a criação de dois Estados e o fim do regime de prisões controladas por Israel, que consistem, essencialmente, nos actuais dois territórios da Palestina. Com lógico foco para Gaza, onde há 20 anos se assiste ao absoluto atropelo a qualquer coisa que se pareça com direitos humanos. Já disse e repito isto: Gaza é uma faixa de 60 quilómetros com dois milhões de pessoas que vivem entre muros, vigiados e proibidos de circular pela potência ocupante. A primeira exigência que qualquer plano de paz, digno desse nome, deve ter é a imediata destruição daqueles muros.

Faixa de Gaza. Foto: D.R.

Mas o que dizia afinal o plano de Blinken com o qual Netanyahu, afinal, até fez o favor de concordar? Entre outras coisas, que as IDF ficariam em Gaza depois do cessar-fogo, que o território seria dividido em Norte e Sul, com as IDF a controlar as passagens e que todo o corredor de passagem para o Egipto teria o controlo dos olhos e armas do exército israelita. Em resumo, o plano de paz sugerido pelos EUA e por Israel para Gaza não é derrubar muros ou pacificar a região: é apenas, e só, aumentar o nível de segurança na prisão onde os palestinianos estão encerrados há décadas.

Agora, como perceberão, vão tentar vender-vos a ideia de que o Hamas, os ‘terroristas deste filme’, lembrem-se, não vai aceitar o plano, apenas porque a paz não lhe interessa. E no fim de tudo, quando as mortes ultrapassarem as 50 mil e os quadros do Hamas não pararem de crescer, é certo e sabido que a culpa será, hoje e sempre, de quem não quer passar a vida na prisão.

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)


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