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Texto/entrevista de Manuel Duran Clemente + comentário meu!

 

1.«Vejo com muita inquietação este crescimento dos extremismos. Para mim o responsável é o sistema desumano, do capitalismo internacional.»MDC
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Entrevista ao JORNAL DO FUNDÃO em 2 de Setembro de 2021,quinze dias depois de ser agraciado pelo PR como o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.
(1ª parte)
..........Nasceu em que ano? Quantos anos tinha aquando do 25 de Abril?
Nasci em 28 de Junho de 1942,em Almada, na quinta duma tia que criou a minha mãe, ambas da Galiza. O meu pai António dos Santos Clemente, nascido em 1915 na Capinha/Fundão, chegou a Capitão ,progredindo numa carreira militar de excelência.
No 25 de Abril de 1974 eu tinha 32 anos e dois filhos.
.........Que ligações tem à Beira Interior?
Como já referi o meu pai nasceu na Capinha,filho de pais ligados ao campo/agricultura e era o único homem irmão de quatro filhas dos meus avós.Três, dessas minhas tias,sempre viveram na Capinha,Peroviseu e Fundão.Outra em Lisboa.
...........Que memórias tem aqui na Beira da sua infância?
Vivi desde os dois anos e até aos onze na vila de Penamacor, onde o meu pai prestou serviço militar e onde viveu quinze anos. Com a família perto eram frequentes os contactos ,com avó, tias e primos, com muitas idas, sobretudo, ao Fundão,Capinha,Covilhã e Castelo Branco.
Frequentei a Escola Primária desde 1948 a 1952,passei com distinção a quarta classe e o exame de admissão ao Liceu de Castelo Branco e ainda o mesmo ao colégio interno dos Pupilos do Exército, onde entraria em 1953,após um ano de espera. As férias de Natal e Páscoa e parte das férias de Verão passei-as sempre com os meus pais, em Penamacor e Águeda(2 anos) até 1960.Ano em que meus pais se deslocaram para S.Tomé e Principe, comissão de serviço de meu pai, já então Alferes, e onde estive com eles nas férias de Verão de 1961,meses antes de ingressar na Academia Militar.
Relativamente à minha infância e juventude na Beira Interior tenho as mais vivas e belas recordações, não só dos passeios pelas suas belas terras,das suas tradições festivas do Natal e Páscoa, como dos Santos Populares e ainda das romarias da Senhora da Póvoa/Penamacor, Senhora do Incenso/Penamacor e de Santa Luzia/Fundão. Numa iniciativa do Jornal do Fundão recordo que em 1961,com um conjunto de 20 jovens estudantes(rapazes e raparigas), trajados a preceito, embelezámos dois carros de bois, com palmeiras e flores, para a romaria de Santa Luzia e recebemos o primeiro prémio, como constará nos arquivos do J.F..
..........Esteve envolvido nos preparativos da Revolução do 25 de Abril? Como viveu o dia? Qual a sua missão? Teve receio que o golpe falhasse?
Falarei por mim,certo de que todos os “militares de Abril” tiveram o seu percurso.Comecei muito cedo e, já na Academia Militar, a maioridade da minha formação politica vinda de contactos anteriores com um grupo de amigos de estudantes liceais e universitários. Fui o primeiro classificado dos meus cursos, quer nos Pupilos do Exército, quer na Academia Militar. Já na Academia Militar me tinha manifestado contra o regime e foi o meu bom “curriculum” escolar anterior que terá evitado a expulsão. Após regresso da minha primeira comissão em Moçambique (1969 e 1970) iniciei contactos, entre os quais com militares do meu tempo, e tive das primeiras reuniões com capitães de Engenharia onde estava colocado (Direcção da Arma de Engenharia) com vista a alterar a situação política. Estive no 3º Congresso da Oposição Democrática, com mais alguns militares (todos nós clandestinos). As entidades militares tiveram conhecimento dessa minha participação e bem assim dum documento que lhes apresentei como censura da guerra e da situação opressora no país. Tal facto levou a que fosse antecipada a minha ida para mais uma comissão em Julho de 1973 e para a Guiné –Bissau. A realidade é que,em Bissau,onde viria a ser segundo comandante do Batalhão de Intendência da Guiné, me juntei a alguns capitães que já tinham a ideia de sensibilizar camaradas seus ,sobretudo capitães, para que se actuasse. A ideia lançada de que a “revolta dos capitães” começou na Guiné não merece discussão. Têm tanta razão os que a defendem como os outros. A revolta começou em cada um de nós, o espaço não foi temporal nem fisicamente circunscrito a uma qualquer latitude, mas de facto a Guiné marcou muito os militares e era ressonante o seu efeito como um vulcão de conflitos e desafios.
Efectivamente na Guiné viviam-se tempos favoráveis à reflexão e ao debate. De forma mais aberta ou mais reservada a contestação convivia com a humidade e o calor tropicais. As circunstâncias fizeram o resto; tornaram a colónia da Guiné um laboratório de experiências e de vivências particulares. Muito pelo seu clima, muito pelo seu tamanho, muito pelo abandono do colonizador e bastante pela forma de actuação do PAIGC e do seu líder Amílcar Cabral, cujo pensamento nos apaixonou e guiou a partir de certa altura.
Graças à publicação do celebérrimo Decreto-Lei nº. 353/73 que facultava a “entrada de oficiais do Quadro Especial de Operações no Quadro Permanente (nas três armas Infantaria, Artilharia e Cavalaria) através de curso intensivo na Academia Militar” os acontecimentos precipitam-se. A questão era saber aproveitar o facto. Assim o fez o grupo dinamizador que eu integrei com os capitães Otelo Saraiva de Carvalho, Jorge Golias, Carlos Matos Gomes, Sousa Pinto, Jorge Alves e José Barroso (este miliciano).Decidiu-se por escrever uma “exposição-protesto” ao Presidente da República, Presidente do Conselho, Ministro da Defesa e Exército, Ministro da Educação e Secretário de Estado do Exército.
Estava pois criado o ambiente e lavrado o terreno para o que viria a seguir.
O grupo de trabalho, encarregado de escrever o texto da mesma, foi constituído pelo recém-promovido Major Almeida Coimbra, Capitães Teixeira Branco, Duran Clemente e Matos Gomes. Assim se iria, com uma assinatura coleciva, afrontar os regulamentos.
Havia que explorar com sucesso o” tremor de terra “ que tal diploma causou no seio dos capitães. E assim foi. O núcleo entrou em acção. Promoveram-se reuniões. Espalhou-se a palavra para os Capitães reunirem no Clube Militar. Com a data de 28 de Agosto a referida “Exposição” teve as assinaturas de quarenta e seis Capitães, recolhidas em Bissau e nas guarnições próximas (em 66 capitães possíveis em todo o território), às quais se juntaram ainda as de quatro Tenentes (em estágio). De notar que os oficiais subscritores eram de todas as armas e serviços. O documento e cópias foram enviados, por mão própria, (capitão Ayala Botto), reforçando o envio por correio registado, para os destinatários. Igualmente nos encarregámos de comunicar aos Capitães, em serviço no interior, o seu conteúdo e explicar-lhes a atitude do protesto colectivo, como afirmação frontal do nosso descontentamento.
A este propósito no seu livro “Alvorada em Abril” é com oportunidade que Otelo: “ Esta autêntica manifestação colectiva poderia ter constituído um sério sinal de alerta para o Regime “ e dizendo ainda “ os jovens leões rugiram, mansos, a princípio. Ganhando consciência da sua força, foram deitando as garras de fora e, rugindo mais forte, lançaram-se ao ataque. A partir daí, quem poderia realmente travar o seu desenfreado galope?”.
Em Setembro, é eleita a primeira Comissão do Movimento de Capitães , na Guiné (e que daria o nome ao Movimento), constituída por Duran Clemente, Matos Gomes ,Almeida Coimbra e António Caetano ( que mais tarde seria substituído por Sousa Pinto, o quinto mais votado).
Certamente impulsionados por nós, reuniram-se em Portugal, em 9 de Setembro, num monte alentejano em Alcáçovas/Èvora,136 oficiais do Exécito (95 capitães,39 tenentes e 2 alferes)e dali saiu outra “exposição-protesto” com as assinaturas de todos estes militares e dirigida ao Presidente do Conselho.
Na Guinè houve que alargar o movimento aos capitães da Armada e da Força Aérea missão de que se encarregou a Comissão do Exército de que eu fazia parte. Passaram a integrar a Comissão os Primeiros Tenentes Marques Pinto e Pessoa Brandão e os Capitães Faria Paulino e Jorge Alves.
Nos primeiros meses de 1974 é de assinalar o seguinte e de forma resumida: estreitaram-se os contactos com Lisboa. Em Fevereiro Duran Clemente, vem a Lisboa para contacto com Vasco Lourenço em serviço numa unidade na Trafaria (Bat.Art).Nesse encontro foram actualizados os conhecimentos das situações. Mas da Guiné vinha um aviso firme dos seus capitães “…ou as coisas se resolvem em Portugal e depressa ou nós, capitães na Guiné, que temos tudo preparado para tomar conta da colónia, o faremos. Estamos mais que impacientes…não vamos depor as armas. Há vidas a defender. Mas tomaremos o poder e negociaremos…com quem for preciso”. Era sabido que o pessoal na Guiné estava com acentuado nervosismo, embora consciente mas impaciente, e isso tinha sido claramente dito por Salgueiro Maia que, em Outubro antes, regressara a Lisboa e fora colocado em Santarém. Vasco Lourenço apelou para que tivéssemos serenidade e afiançou que a “acção” se daria antes do 10 de Junho. Foi esse o recado do Movimento de Capitães no continente que o mensageiro trouxe para o Movimento na Guiné.
Em 4 de Março avisamos Lisboa de que os Majores Casanova Ferreira e Manuel Monge regressavam à metrópole no dia seguinte e estavam cheios de algum voluntarismo. Denotavam extrema vontade de intervir. Haveria que dar o melhor enquadramento à sua dinâmica. Ouve distração do nosso aviso ( já com Vasco Lourenço nos Açores) e ocorreu o 16 de Março.
Fomos recolhendo informações e sensibilizando os novos oficiais capitães que foram chegando e até outras patentes de oficiais dos três ramos. Entretanto em todas as unidades (quarteis) fomos nomeando representantes dos capitães, dos sargentos e dos praças, como nossos delegados. Em caso de necessidade todo o CITGuiné estava nas nossas mãos.Quem não estivesse connosco seria devolvido a Lisboa como aconteceu com o General Comando –Chefe e outros por nós interpelados, no dia 26.
Qualquer eventual golpe nosso, na Guiné, não falharia se o golpe no continente falhasse. Mas é verdade que sempre acreditamos no sucesso dos camaradas em Portugal com a aprendizagem do falhado e precipitado: 16 de Março. (continua)
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  • Jose Monteiro
    Para além da sintética, mas densa, entrevista, registei as seguintes curiosidades:
    - o JF - Jornal do Fundão, o NA - Noticias da Amadora e o CF - Comércio do Funchal (o fininho cor de rosa) eram os regionais de referência para alguns que já tinham deixado as fardas e pegado noutras vidas!
    O CF foi por mim assinado a partir do nº 2000, que "religiosamente" guardei até deixar de o comprar, quando foi fechado por um dos "revolucionários" que foi nomeado director, não sei se com a intenção de o fechar! Na empresa onde trabalhei 24 anos, com um intervalo de 10 meses) chegaram a ser 22 assinantes do CF;
    - disseram, em 1949, quando fiz o exame da 4ª classe em Foz Coa, também com distinção, que esse seria o último ano em que essa classificação era atribuída; parece que não, uma vez que tereis feito o vosso exame uns 2 ou 3 anos depois do meu!
    - deixei o Ministério Público em 1970, onde me cruzei com alguns magistrados que não tratavam apenas as questões das Leis, mas um deles, organizou algumas noites de poesia, onde os grandes foram apreciados e o que mais o entusiasmou foi o José Gomes Ferreira, que com frequência citava, na sua residência oficial de Leiria e foi um dois impulsionadores de que devia mudar de profissão à qual eu me não adaptava (a pequena corrupção), mas a mudança foi ao 3º concurso para subir a 1º escriturário, ter sido nomeado um outro com apenas 45 dias de função e não eu, com quase 6 anos (eu apenas entreguei o pedido/requerimento, com duas declarações obrigatórias: a do chefe de secretaria a atestar o meu tempo de serviço e a do magistrado a declarar se executava bem ou mal a função).
    No dia em que chegou a nomeação do outro funcionário eu coloquei a questão a um dos causídicos que tinha avença de várias empresas, se alguma estava a precisar de um trabalhador! Não tardou a resposta, e num dos últimos dias de Fevereiro de 1970 fui a uma entrevista na então António Martins Valverde, transportado pelo colega da Instrução Preparatória do 1º Juizo e nela esteve presente, com autorização do entrevistador, o recém chegado à Valverde e director de serviços e o próprio patrão! Por proposta minha, depois de ter afirmado que "o não sou capaz" não fazer parte da minha forma de estar na vida, aceitaram eu ir uma semana a ver como seria a minha função, que foi aceite!
    - no dia 2 de Março, dia do meu 31º aniversário de facto( o de direito é a 4, histórias...) e já à frente dos serviços comerciais da empresa que cresceu 25% nesse ano de70 e 40% no ano seguinte, veio a passar a Sociedade Anónima, com a intervenção de um contabilista, que acabaria por ajudar na sua queda, anos mais tarde!
    Em rotura com o genro do Martins Valverde, acabado de chegar à empresa e decidido a ser nomeado director Comercial, já com quota assegurada, pedi a demissão, com festa de despedida a que preferiram chamar de homenagem, no dia 15 de Março à noite, recebi o Livro do General Spínola, Portugal e o Futuro, de um dos vendedores, mas que era vendido e não oferecido! Coisas!
    - no dia 16 de Março entrei ao serviço de um dos radiologistas de Leiria, a quem já dactilografava os relatórios, para vir a fazer o curso para Ajudante de radiologia! Foi nesse dia que o autor do livro, que na véspera tinha recebido e pago, resolveu fazer o designado levantamento das Caldas e através de um familiar de um dos oficiais detidos, soube que ele terá dito que seria por pouco tempo a detenção!
    - O 25 de Abril apanhou-me no local de trabalho e a dactilografar os relatórios de radiologia! O resto fica para um dia!
    - no dia 21 de Janeiro de 1975, voltei à Valverde para coordenar um serviço que era apenas a coordenação dos já existentes e que trabalhavam cada um para si. Chamaram-lhe Ordenamento, os técnicos que tinham estado na empresa a fazer um estudo de viabilização!
    Bom final de domingo! Abraço, amigo!

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