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ATUALIDADE / ARQUIVO

RTP: G3 na barriga tirou Duran do ar

30 NOVEMBRO 2010 22:55

Paulo Gaião (www.expresso.pt)

José Coutinho, Duran Clemente e Fernando Cardeira na rampa dos antigos estúdios da RTP no Lumiar

Expresso juntou dois atores fundamentais do 25 de novembro de 1975, que nunca se cruzaram durante o golpe. Duran Clemente, o capitão que ocupou a RTP no Lumiar, e José Coutinho, o major que, na torre de emissão de Monsanto, o retirou do ar.

O PS, o PSD e o Grupo dos Nove já tinham preparado a instalação da Assembleia da República no Porto, onde seria declarada uma república democrática para fazer frente à Comuna de Lisboa. O sucesso das forças moderadas de Ramalho Eanes e de Vasco Lourenço para neutralizar os paraquedistas e os militares mais à esquerda fez com que não houvesse necessidade de o país se cindir.

Durante algum tempo, o país só esteve mesmo separado pela emissão da RTP. A norte do emissor da Lousã, através dos estúdios do Porto, estava no ar uma comédia com o ator Danny Kaye, "O Homem do Diner's Club", do realizador norte-americano Frank Tashlin. A sul deste emissor, a RTP, a única televisão então existente no país, transmitia desde o princípio da tarde uma emissão dirigida por Duran Clemente.

IMAGEM PARA A HISTÓRIA

Apesar de muitos factos decisivos terem ocorrido nesse dia 25 de novembro de 1975, a imagem que ficou para a história do golpe que pôs fim ao PREC e colocou o país na rota da democracia foi a imagem de Duran Clemente, que falava sobre a ação desenvolvida e o curso da revolução, a ser interrompido por sinais que lhe fazem.

"Estão a dizer-me que não posso falar por razões de ordem técnica, é isso?", perguntou Duran Clemente olhandi diretamente para a câmara. Foram as suas últimas palavras antes de a emissão ter sido comutada no sul do país para os estúdios do Porto, com a comédia de Danny Kaye.

A hoje deputada do PS, Manuela de Melo, que na altura era jornalista no Porto, recorda que ao fim da tarde desse dia houve uma reunião em que as chefias da televisão do Porto comunicaram que tinha chegado uma ordem diretamente da Presidência da República (Costa Gomes era o Presidente), segundo a qual o Porto tinha de assegurar a emissão porque a RTP na capital estava ocupada.

PORTO SÓ TINHA DOIS PROGRAMAS DE TELEVISÃO

Uma equipa de jornalistas e técnicos da RTP em Lisboa, entre os quais João Soares Louro, tinha, entretanto, recebido instruções para ir para o Porto, levando vários programas para emitir pelo tempo que fosse necessário. Isto porque os estúdios do norte não tinham programação própria. A ideia era criar uma televisão que se opusesse à de Lisboa. No entanto, este grupo não chegou a tempo. Foi, então, que o Porto entrou em emissão.

"Só tínhamos dois programas nos arquivos", recorda Manuela Melo. "Um era o filme com o Danny Kaye, o outro era sobre o Yves Montand, que optámos logo por não pôr porque ele era do Partido Comunista francês", conta Manuela de Melo.

Se o Porto criou as condições para o fracasso do golpe, sem uma operação que se revelou decisiva na capital o 25 de novembro teria sido muito diferente. E aqui os militares foram os principais atores.

REENCONTRO 35 ANOS DEPOIS

Trinta e cinco anos depois do golpe do 25 de novembro de 1975, o Expresso juntou três intervenientes no processo. Para além do hoje coronel Duran Clemente, o coronel José Tavares Coutinho - que ocupou a torre de emissão de Monsanto e foi responsável pela comutação da emissão de Lisboa para o Porto - e o então tenente Fernando Cardeira, diretor de informação da RTP, que foi detido pelas forças revoltosas.

Duran Clemente, então 2.º comandante da Escola Prática de Administração Militar, recorda hoje que "interrompeu a emissão da Telescola" (escolaridade a partir de aulas dadas pela televisão) e pediu para começar a ser passada "música portuguesa". "Lembro-me que puseram os coros do Fernando Lopes-Graça", refere.

Antes de ser o próprio a intervir na emissão, Duran Clemente mandou as suas forças fechar o presidente da RTP da altura, major Pedroso Marques, e o diretor de informação, tenente Fernando Cardeira, num gabinete do Lumiar.

JOSÉ COUTINHO CONFIRMOU DANNY KAYE COM A MULHER

Em Monsanto, o então major José Coutinho tinha recebido ordem do general Garcia dos Santos para impedir a transmissão a partir dos estúdios do Lumiar, "custe o que custasse". José Coutinho diz ao Expresso que "quando chegou a Monsanto viu três monitores de televisão a emitir, um com Duran Clemente, outro com Danny Kaye e o terceiro com imagens da Eurovisão".

É então que dá ordem ao operador da RTP no local para mudar a emissão de Duran Clemente para a de Danny Kaye. Este responde que só com autorização superior. Outro operador ouve a conversa e tenta telefonar para o Lumiar. Os sinais que estão a ser feitos a Duran Clemente na televisão tiveram a ver com este contacto. Duran Clemente diz: "Ao fim de 35 anos, é a primeira vez que ouço esta história".

COMUTAÇÃO IMPOSTA COM AUXÍLIO DE UMA METRALHADORA G3

Mas José Coutinho não permite que a comunicação prossiga. Quando um dos militares das forças de Coutinho aponta uma metralhadora G3 à barriga do operador, a emissão é imediatamente comutada. Duran Clemente dá lugar a Danny Kaye. Para ter a certeza de que a emissão tinha sido mesmo alterada, José Coutinho usa um metódo simples: "Telefonei para a minha mulher, que me disse que estava a dar um filme".

Fernando Cardeira passou a tarde fechado no seu gabinete: "Desculpa lá, mas tens de ficar aqui, disse-me o Duran Clemente". "Fui vigiado por um alferes com uma G3, que sempre que tocava o meu telefone na secretária, atendia".

Cardeira viu a intervenção de Duran Clemente a partir do gabinete, já que nele havia uma televisão. Tal como viu a passagem da emissão para o filme com Danny Kaye. O militar lembra-se de ter pensado: "Isto abortou".

Atualização de texto publicado na edição do Expresso de 27 de novembro de 2010


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