Antonio Gil
Já o disse uma vez e repito-o: se soubesse para onde, expatriava-me (exílio é uma palavra gasta e ainda não consegui que me ostracizassem).
Tentaria eliminar os meus vestígios por aqui: possivelmente venderia tudo o que pudesse e incendiaria o resto. Faria as malas com gosto e parcimónia.
Tentaria um país quente para não ter de levar muita roupa. Não fosse o frio e as leis andaria sempre nu. Odeio roupagens, todos os tipos delas. E agora impõem-me mais uma para cobrir boca e nariz, um novo conceito de obscenidade facial.
O desejo de fugir provavelmente dirá sobre algo de entediante que sinto sobre a Europa em geral e Portugal em particular.
Admito que ninguém esteja interessado nisto, sou apenas um cidadão prestes a entrar em burn-out social que começou a dar pontapés metafóricos em gente que costumava admirar (céus, como é que eu pude admirar tantos totós sado-masoquistas?)
Estou ansioso por sair daqui pela porta sul.
Recebo ainda emails de gente que incompreensivelmente me estima. vejam este (bom, eu apimentei-o mas o sumo da coisa está lá):
"Entendo-te amigo, eu sempre quis ir a algum lugar exótico numa praia com bebidas que precisam de um guarda-sol colorido para não aquecerem sob o sol forte.
Umas garotas morenas seriam bem vindas, ando farto de gente descolorida.
Nem que fosse só uma vez para morrer logo de seguida, eu gostaria de ouvir as ondas chegarem suavemente ao ponto de nem notarmos que elas desmaiaram no areal
E sim, oh sim, o desejo de olhar para um daqueles pores do sol de derreter a alma que por vezes me parecem trabalhados em PhotoShop porque nada tão lindo me parece já real.
Mas tenho dois filhos e uma monstruosa hipoteca por pagar de uma casa da qual não gosto, três carros que me custaram os 3 olhos do corpo e ainda uma esposa de pele translúcida como a de uma osga tropical mas que odeia insectos e odeia ainda mais garotas morenas.
Estou farto desta vida e sei que já não vou poder ter outra. Vai, amigo: descobre um lugar exótico, escreve sobre ele. Tu és bom nisso, pelo menos assim viveria essa experiência porque muitas vezes me senti ambientado, só pelo que escreves. ”
Fico comovido por estas missivas de aceitação do destino próprio e de encorajamento da aventura alheia, olho em volta limpando uma lágrima furtiva e penso: de quanto de todo este lixo sombrio eu realmente preciso?
Há dias conversei - via net - por algumas horas com um amigo que morou em Macau durante anos e se casou com uma filipina, o que foi uma boa escolha, já que as filipinas não querem saber de modas, nunca usaram chumaços nem ligam muito a maquilhagem, saltos altos, pintura de cabelos etc. (O que me remete para a mulher com quem me casei numa hora feliz, depois de muitas horas felizes)
Ele voltou a Portugal, viu o que aqui se passa e tratou de comprar a passagem de volta rapidamente antes que venham aí novas restrições.
Entenda-se: o meu amigo sempre amou Portugal, a sua esposa apaixonou-se pelo país mas ele não soube explicar-lhe para onde foram os portugueses que ocupavam seus tempos nas esplanadas, passeando na praia ou sentando-se nos bancos de jardim. Tudo isto coisas que ele apaixonadamente descreveu a sua mulher.
Ela amou apenas a paisagem porque não viu pessoas. e ela gostaria tanto de ter visto pessoas.
A outra razão para rastejar daqui para fora é difusa, mas sentida de forma poderosa: uma insatisfação por esta política amorfa, um cansaço e raiva de fundo por uma cada vez mais crescente incivilidade na sociedade e na política .
Popper estaria orgulhoso: esta gente tornou-se tão intolerante para o que define como intolerância - que muitas vezes é só querer ganhar a vida - que chama fascista a qualquer criatura que discorde delas.
Só para sentir esse gostinho - até aqui - secreto da intolerância, justificado por um filósofo escroto e agora saltando para fora, de garras afiadas, para zurzir qualquer pessoa que não possa ganhar a vida em casa.
Para o meu amigo - como para mim e tantos outros que uma vez ou mais saíram do país - era inconfundível o retornar a Portugal após uma ausência.
Acho que as pessoas sorriam porque notavam essa nossa comoção de voltarmos a falar a nossa língua, pedir uma Sagres, tomar uma bica (café a sério, finalmente) ou fumar SG Gigante (que entretanto também já não há).
Mas sobretudo houve essa perda da cortesia espontânea que já foi marca em Portugal em tempos anteriores. Isto quando se encontra alguém porque o ''novo normal'' é já não haver ninguém na pu#a da rua.
Temos de refazer o cliché: Portugal que desbravou os 7 mares enfrentando tormentas, vencendo o Adamastor agora...comprou papel higiénico e fechou-se em casa, borradinho de medo. E chama a tudo isso heroísmo!
Tirem-me daqui, quero sair daqui. Não há mais lugares na Terra onde possa encontrar gente? ok, então quero ser o primeiro humano a viver em Marte.
Se é para haver distanciamento social, não sejamos pífios: dois metros? quanto mais longe disto melhor!
E Marte - por enquanto - parece-me uma distância segura para não me sentir infectado pela estupidez militante.
Mesmo assim receio: estarei suficientemente longe de uma cretinice de proporções tão galácticas?


Comentários
Enviar um comentário