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Texto de Afredo Mendes, partilhado por Célia Bregas...

 

Crónica de um pastor sem máscara

5 min read

Fala do apego à terra, de enxadeiros com camisa abotoada nos colarinhos agarrados ao arado, de mãos encodeadas pelo trato de cabos de madeira e de ferro. Sob a vigilância de quem já nasceu e cresceu homem, as ovelhas vão pastando na solidão dos montes até a hora do mungir, lá na penumbra do palheiro. Enquanto caminhamos lado a lado recorda o tempo em que tinha de faltar à escola primária para ajudar o pai com os rebanhos catando a folhagem, pelo que se empinavam nas árvores seculares com tronco retorcido, esburacado, escultural.

– Sabes por que as oliveiras têm buracos no tronco?

– Não, Zé.

– Para guardarem a água da chuva do Inverno e poderem aguentar o Verão. Faz de conta que são bocas cheias de sede.

Entrementes, os cordeiros famintos, impacientes, arremessam para as tetas maternas. Quantas e quantas vezes o meu amigo ajudou as ovelhas a parir e tornou à aldeia com os recém-nascidos ao colo, as mãos ainda lambuzadas de sangue. O pastor respira fundo, senhor daquele universo, daquela criação. Nisto, dá-lhe para o chiste:

– Andava o meu pai com as ovelhas quando lhe chegou a vontade. Chamou a minha mãe e, dentro da cabana, zás!, tirou as botas e fez-me. Anos depois, porque eu era travesso, quando se atazanava comigo costumava dizer:

– Ah, desgraçado! Muito me arrependo de naquele dia ter tirado as botas…

O ovelheiro graniza de sal grosso os hemisférios de um tomate que partilha comigo e com o António Rodrigues, o Leites. Adenta o fruto, consolado. Escorre-lhe o sumo pelo queixo, qual baba de sangue de cordeiro a enxergar o mundo pela primeira vez. Depois, deixa regalar a vista nos campos matizados, nos fraguedos, restolho e regatos juncados de rãs a coaxar. A aguarela que lhe serve de companhia dia-a-dia, décadas seguidas, até as pernas se deterem no crepúsculo. Por ora, salta aqui, desce acolà.

– Ééééé! – Ààààà!

Reúne!

Rápida como um raio, a cadelita corre para o rebanho e, num ápice, consegue juntar todas as ovelhas, mesmo as mais tresmalhadas – um perfeito e compacto novelo de lã.

– Vira!

Vira!

E duas cadelitas correm de um lado para o outro a meia-dúzia de palmos dos animais lãzudos. Num instante fazem com que o rebanho mude de rumo, posto nesse dia não pernoitar nos casotos do ermo. Tarefa executada, catam-se mutuamente. À distância, cães de gado lombudos, de focinho negro, esquadrinham os horizontes; ao mais suave bulir da vegetação arrebitam as orelhas, que ficam espetadas, em alerta.

Desafia o Zé Miguel:

– Queres apostar em como são seis e picos, altura de recolherem? Elas sabem disso. Vê no relógio:

A essa hora, ordeiras e chocalheiras, as badanas tornam ao povoado através de trilhos de terra batida. Na peugada, o pastor e o seu cajado e os cães de focinho negro, enquadramento de quadro bíblico.

– Ééééé! – Ààààà!

Gosto muito dos meus cães. Sem eles não me desenrascava. Há pouco perseguiram uma raposa. Que linda!… As ovelhas estrumam as terras, dão o leite, a carne e a lã.

Ao longe, naquela luz nítida após ter chovido, uma bruma leitosa permite descortinar as cabeças dos montes coroadas por nuvens esfiapadas. Brilham prados, ervagem, giestais. Muros de pedras maneirinhas encaixadas umas nas outras delimitam territórios conquistados com muitas noites mal dormidas, promessas na capela e bruxaria no adro, que assim se contratualiza o sincretismo religioso; património desbravado com amor, aprazimento e consumição, tiçoadas de permeio, cabeças escachadas e pleito no tribunal. Os muros. Monumentos de herdo e probidade. Sobem e descem declives, percorrem silvados, terras pastadeiras, matos e olivais e amendoais, lá ao longe. Impressiona tanta consistência e durabilidade, a sua beleza rugosa. A pulso, ó pedra!, ó pedrinha! grandes artífices lhes deram vida e assim, por séculos e séculos, a obra exposta a céu aberto.

Ouvimos os filhotes dos pardais ainda implumes pedinchando sustento. No Outono, bandos de estorninhos voam em treino de migração, formam nuvens de asas, escolhem formatos de lágrima, espiral, e voam cada qual a imitar o parceiro. Não existem hesitações, entrechoques. De um lado para o outro movimentos ágeis, estonteantes. Coesos. Aproximam-se dos ninhos, mudam de orientação, ganham formas de sangue observado ao microscópio, até que entram na copa das árvores e o chilrear leva sumiço na boca do lusco-fusco.

– Todos as manhãzinhas saio com o gado. Debaixo de chuva, trovoadas e nevões, calor e secas. Palmilho quilómetros na companhia das ovelhas e dos cães, Moinho da Barbuda, Ribeira de Massueime, encostas do Côa; conheço estes lugares como conheço as minhas mãos e os realejos que levo aos beiços para tocar umas modinhas. Uma vida inteira na Natureza. Não me dou com a confusão da cidade, pressas, carros e gente carrancuda com nervos à flor da pele. Quem lhes dera comer aquilo que boto aos porcos. É tudo natural, colhido das minhas hortas.

– E a pandemia, Zé?

– Bicho ruim. Olhai as gentes açaimadas. Eu, que respiro estes ares, que ando nesta lida sozinho posso dizer: Qual máscara, qual carapuça!

Vai uma pinga? 

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