POESIA QUE INCLUI: A VIAGEM PARA ANGOLA, O DESFILE, A OPERAÃO ESMERALDA E AS RECORDAÇÕES
ESTE CONJUNTO DE POEMAS ( 16 ) VÃO DESDE A VIAGEM PARA ANGOLA, CHEGADA, OPERAÇÃO ESMERALDA E RECORDAÇÕES!
TODOS OS POEMAS, DESDE A CHEGADA,
ATÉ FINAL DA MINHA INTERVENÇÃO, NA
QUALIDADE DE DESTACADO, NA BATERIA
DE ARTILHARIA 147, DURANTE 26 DIAS, NO
AMBITO DA OPERAÇÃO ESMERALDA!
POESIA NARRATIVA
1 - VERA CRUZ PARA ANGOLA
Lá vinha a boiar à superfície
Do estômago e do nojo
No balançar violento do Vera Cruz
Os lavatórios fedendo
A mucosa e vísceras
Os canos a recusar dar passagem
À merda vomitada
Ou era vómito cagado ?!
Ninguém pesava nisso !
Os pálidos guerreiros da batalha da viagem
Estirados como bacalhaus na seca e
Os peixes voadores em bando a indicarem o caminho !
O Vera Cruz a mergulhar
Para depois se encabritar
Onda acima
Revoltado contra a náusea do vómito mar
Que nos cuspia de salpicos!...
A fantochada do ensaio e salvamento
Ministrado pelos graduados de terra
Com cara de enjoo como nós
Tanto explicadores como o exercício!
O desejo quase doentio de ver
Para gáudio do maralhal
O veloz empregado de mesa bater
Contra o vidro da pota da copa
Que um olho de capataz foto fotelétrico comandava
E que nunca falhou!
A sensação incómoda e caricata de ver
Lá adiante no corredor
As fardas inclinadas como bêbedos
Nos dias em que a ondulação era lateral !
O acordar ainda cedo mas já dia
E não ouvir o ruído dos motores a trabalhar
E o Vera Cruz a tentar despejar para um dos lados
Os milhares de prisioneiros
Daquela ilha superlotada
De anémicos guerreiros …
Estávamos em Luanda !
Reis Caçote
61/63.dig.14/17
2 - VIAGEM E CHEGADA
Oito dias de viagem, quase nove
Ininterruptamente.
Mares calmos, tempestuosos
Gaivotas poucas eu vi.
Peixes voadores e água, muita água
Essa sim, perdia-se de vista.
No cais, negros e sacos de cimento
Notei mais o calor.
Marchando logo vi brancos
Colchas nas varandas, mãos acenando
Rostos suando ao Sol do meio-dia
Mar de caqui na marginal.
Baía ampla, elegantes palmeiras
Pirogas toscas, vento arredio
Indolentes águas como quitandeiras
Apregoando bananoê!
Reis Caçote
1968/dig.02/14
(PRIMEIRO INCIDENTE)
3 – O’LHÒ GELADO FRESQUIHO
… e aquele “ar “ a tentar ser firme e solene
Ao fim de oito dias de ressaca de mar
Quais sonâmbulos arrastados
Maquinalmente para o calor
Da marginal â baía…
Com palmas laterais e calor pastoso atravessando o caqui
E a sede a aumentar
A envolver de alto a baixo nossa capacidade exausta
E o esquerdo, direito
E o um, dois
E o marcaaar passo
E o alto !
Olhó gelado fresquinho !
… mas tão longe ! E eu com tanta sede !
Olhó gelado
Agora já pertinho !Hum !
Dê-me um faz favor…
E logo a sede a fugir da boca
E da língua pastosa
E quase a chegar a garganta…
- você aí, deite já fora o gelado ! ordenam os galões.
E o gelado quase inteiro
A derreter-se junto ao passeio
Fresquinho e tão desejado
Olhó gelado…
Apenas serviu de acicate à sede !
Reis Caçote
Marginal, Luanda/6/7/61
4 - A NOTICIA
Não é uma boa noticia que te vou dar !
…?!...?!...?!...
Chamei-te para te comunicar
…voz de whiskie com galões a soar distante…
Que
Como único furriel de artilharia no pelotão de comando
Terás de integrar o efectivo da bateria 147por algum tempo
Em substituição do furriel “Sousa”
Internado no hospital !
Deves ir já preparar tuas coisas e
Apresentares-te no Grafanil.
Assim mesmo ! A frio !
Lá sim
No RAL havia a encenação
“gozada” pêlos que não eram mencionados
De manter na dúvida
Que era esperança
E tortura também
Como encarcerados fora das grades
Uma unidade militar quase inteira !
Aqui não
Já não era precisa encenação
Nem contemplação
Estava cercado !
Reis Caçote
GACL,1961/63 .
5º - LEIS DA VIDA E DA MORTE
Exercício triste
Exibido em câmara lenta
Sobre a corda bamba do circo
Da ramagem de árvore
Quase só ramos
Que folhas incipientes abandonaram
Pelo pequeno camaleão pré-histórico
A convencer-nos e a convencer-se
Dolorosamente
Duma tímida agressividade
Nuns olhos sempre abertos de estranhas visões.
Mais acima
Em rara demonstração de destreza acrobática
E de provocação ao ponto de interrogação do rabo do cameleão
Um esquilo eriçado de fome
Olhos vivos e cabeça no ar … a espreitar.
Cada um de sua maneira cumpria
Esforçada e honestamente seu papel e voluntariamente
Naquele espectáculo de circo pobre
Como saltimbancos de aldeia tentando
Distrair os militares de intervenção
Involuntários da guerra
E da defesa do açúcar da Tentativa
E do café de todas as roças
E do sisal de todos os Ucuas
E dos diamantes- de quem ?
E da Angola é nossa
E da Pátria una e indivisível…!
Não estaria nos cálculos dos dois trapezistas …
… tudo leva a crer…
O cruzarem-se no caminho do outro
Partida que a Natureza lhes pregou!
Enfrentaram-se:
O ar carrancudo do herdeiro milenar
com
o distraído olhar do esquilo de vison pelintra.
Da boca pré-histórica um dardo veloz saiu
Atingindo a boca de riso ausente do esquilo
Desequilibrado e suspenso do ramo o camaleão
Como que enforcado pêla própria língua
Aquele frágil representante do paleozóico no chão caiu
De boca aberta de espanto
Veio morrer em silêncio e dignidade de seus antepassados
Tendo como testemunhas os fardados
Aguardando sua chamada para a guerra!
Reis Caçote
Tentativa, Caxito1961/14
6 - ADEUS, ATÉ AO MEU REGRESSO
O primeiro!...
Avança uma farda até ali anónima:
fala o soldado tal número tal a bateria tal
para seus pais irmãos tias e primos
desejando a todos um natal muito feliz e
um ano novo cheio de prosperidades …!
Outro!...
Indecisa outra farda avança a olhar para os pensamentos:
fala o soldado tal da bateria tal…
… olha em volta… …
- olha o número ! alguém grita
número tal
para sua querida mãe noiva irmã
restantes familiares e amigos
desejando a todos um Ano… ?... um Natal cheio … um
ano feliz… ?... um Natal…!
até –ao – meu regresso
indeciso… com dúvidas … !
Para este não houve regresso!...
De regresso, à noite, numa curva da estrada, o jeepão se virou
Entre a gravação e o Natal
Entre Luanda e o Caxito…
Reis Caçote
Tentativa, Caxito 1961
7 - HELICOPTERO
É já a segunda vez hoje
Que o gafanhoto gigante
De asas adejantes sobre o costado
Em movimento circular
Agredia os ares de Angola e da Tentativa
Poisando frente ao hospital
Atarracado e tristonho
Perdido no oásis do palma!
- houve grossa borrasca de certeza –dizia-se
Mas faltava autorização para ir ver – sabia-se~
Às escondidas no dia seguinte
Ainda a manhã bocejava e o Sol os olhos húmidos esfregava
Fomos à casa mortuária…
dois corpos de caqui
empastado de sangue e terra
com o rosto de pavor definitivo
deitados de papo para o ar
tendo ao pescoço uma declaração
para lápide da eternidade
aos vinte e pouco anos
registada num cartão-identificação minia
que se recusavam a soletrar.
Um exibia com os olhos entreabertos e sem brilho
Um buraco de bala entre as sobrancelhas
Como nos livros de cowboys dos 15 anos.
O outro de olhos cerrados e boca aberta de espanto
Apresentava uma “segunda boca “ enorme na nuca
Obliqua e arreganhada por onde a vida se esvaíu.
Não encontrámos vestígios de alma
Que o capelão encomendou…iria a caminho do céu ?!
Nenhum deles nem nós encomendou a guerra
que continuava lá fora
à procura de mais almas !
Encomendadas ou não!...
Reis Caçote
Tentativa, Caxito 1961
8 - A CAMINHO DA ESMERALDA
A tentar encher de coragem o pensamento
Penetrámos de medo a noite da picada !
Manifestado no murmúrio abafado das vozes
Nos guinchos dos rodados das Gê Eme Cê’s ampliados na noite
A quem silenciosamente chamávamos
- filhas da puta !
Nos faróis das viaturas de trás
Insistindo em iluminar e transformar em alvo
A da frente em que seguíamos.
Nos solavancos travagens e bruscos arranques
Frutos da inexperiência e do cagaço dos motoristas.
Na preocupação de fingir coragem e descontracção
Quando o medo e a tensão se transformavam
Em gestos e mudos insultos
só os gestos se viam !
No vergastar cadenciado dos rostos
Pêlos flexíveis e finos ramos
Curvados ao peso das bagas avinhadas de cor
Que os faróis de trás mostravam e não identificámos.
No aroma forte e bom que de todos os lados chegava e que
Mentalmente traduzíamos como uma Primavera em Setembro e
Que naquela latitude mandou à merda o calendário.
Na ordem de parar a coluna chegada ao rádio portátil e
Na “coragem” do capitão sem galões por conveniência táctica
Passando para a frente da coluna mal avistou o sinal da Kibaba
Reis Caçote
Viagem entre Caxito e Fazenda Kibab1961
9 - KIBABA - PONTO DE CHEGADA
Na aproximação da “traição “
Identificada na fita amarela a cingir uma carapinha sem côr.
Na arrumação apressada dos móveis de destruição
Ocupando e esmagando com os rodados o trabalho
Representado nas agora acinzentadas bagas
Que teriam sido apanhadas dos agressivos ramos da picada laterais
Por mãos ausentes de brancas palmas
Agora representadas, apenas na cor
Pela fita amarela da “traição”.
No desentorpecer das pernas, dobradas pêlos joelhos horas a fio
Doridas de medo a fingir coragem
Na tensão aumentada em cada curva
Em cada vaga vegetal a escor5er das encostas e
Abafando o pó da estrada.
Sobretudo na passagem pelo Úkua
Com a macabra recepção promovida
pêlos encarregados da expansão
da fé e do Império !
Traduzida no perfilado alinhamento
Das dezenas de cabeças tumefactas
Ensanguentadas e deformadas
Com a carapinha coberta de pó como a negra pele
… algumas pareciam rir de nosso medo ! .
E que na falta do suporte natural – os corpos
Escolheram para os substituir finos paus
enfiados na traqueia e que
mal plantados no chão oscilavam
ameaçando vir ter connosco à estrada
à mais leve deslocação de ar !!!
No respirar fundo a fingir de aliviado
Percorrendo o olhar em volta e ver:
em frente uma mancha negra uniforme
lombo de baleia-gigante que crescia para longe
e de seguida quebrava bruscamente
solenemente
respeitosamente
na informação-arrepio sussurrada
é a Pedra Verde !!!
Reis Caçote
Kibaba, Úcua1661/06/Set.
10 - PRIMEIRA ALVORADA
De olhos doridos e ineficazes, mas incapazes de fechar-se
De ouvidos analfabetos à maioria dos sons da noite e da mata
De braços-gestos descoordenados mas abraçando as armas
De língua quitinosa de sede e recalcada de silêncio mas prometendo vingança
Da necessidade uterina de podermos olhar o que nos cercava e deprimia
Esperámos pela manhã
(Filha querida da noite
Da noite do nosso medo a fingir coragem
Da noite camara de gás do desejo do cigarro
Apagado pela prudência )
Que pouco e pouco foi chegando como cobra a rastejar
Modificando o perfil das coisas
Acordando os que não estranhos como nós
Os que não forçados como nós
Se espreguiçariam… lentamente… naturalmente
No final duma noite em que apenas nós
Os estranhos
Os espantalhos da coragem
Nos permitíamos alterar
Mesmo que levemente
Mas sempre abusivamente.
E então vimos:
A Pedra verde do lado de fora da lente da Resistência
Era o perfil de um punho fechado
Socando com violência um ventre de nuvens
Que num abandono de morte pareciam pairar
Brancas e puras
Na base do pulso-pulsante
Que sustentava o punho
E dava violência ao soco.
O braço daquele adamastor parecia repousar solene ou
provocatoriamente calmo ?!
Desde o punho lá ao longe, percorrendo com olhar curioso agora
da esquerda para a direita
quase até junto de nós
deslumbrados
na colina da Kibaba.
Reis Caçote
1961/06/Set.
11 - O AMANHECER NA GUERRA
Espreitando-nos sem cerimónia
e porquê cerimónias connosco ?!
Surge o Sol para lá do punho
de certeza como era costume ?
embaciado como era costume ?
Responsável, temos a certeza
Pela fuga do branco véu de nuvens
Que cobria toda a mata
E pelo exuberante oceano verde e calmo
E que o nosso atordoamento parecia ameaçar
A cada instante
Galgar os escassos metros da colina
Arrastar na passagem os tenros abacaxi
Arrancar pala base o tronco-esqueleto
Com o palanque-miradoiro lá no alto e
Fazer ruir o que restava da chamuscada casa do capataz
E perguntar-nos:
Quem vos autorizou ?
Quem vos aconselhou ?
Quem vos enganou ?
Ou então
Quem vos obrigou a invadir pela força
O que eu
Sem violência
Ajudei a construir ?
Reis Caçote
1961/06/Set.
12 - A GUERRA SOB TENSÃO
Do Caxito às Mabubas
E das Mabubas à Kibaba
Só o Úcua mostrava a face do terror !
Naqueles olhos de espanto
Com o brilho das estrelas na noite da pele
Baços como este fim de tarde de horror.
Mansamente caía sobre os nervos da guerra
O cacimbo e a noite.
Postados de cada lado da estrada
A meio da encosta do abacaxi
Dois soldados
De espingarda em punho e
Do papel compenetrados :
- Alto ! Quem vem faça alto !
Parámos...
Que se passa ? perguntei
- Sabe o que é ?! Estamos bem fodidos!
Oh, homem, mas que se passa?...fingindo calma !
- Então é com esta merda (mostrava a Mauser) que nos vamos defender ?!
- Mandaram os caçadores embora e nós ficamos aqui enterrados ?!
Passámos…
Tinha estalado a “guerra” no acampamento !
do palavrão – que não repito
do silêncio solene – que não consigo traduzir
Entretanto chegava a noite impiedosa e o cacimbo com ela
A penetrar-nos lentamente
Pelas fendas do desencanto
Desta guerra
sem tiros
sem inimigos à vista
sem motivo suficiente como todas as guerras.
Cada um passeava a guerra dos outros
nos passos de chumbo e desespero
Cada um arrastava a impotência
no passeio deselegante da espingarda
no obsceno silêncio dos obuses.
O leque das viaturas de faróis no máximo a noite inteira
na direcção da orla da mata
Os obuses, de “rabo” entre “as pernas”
com o tubo na horizontal
A diversidade dos sons vindos algures da mata
a penetrarem de arrepio a medula
O ruído da serra mecânica lá ao longe e
Duas ou três rajadas de tiros
De certeza para matar o medo que não morria
A manhã estendeu sobre a mata um denso lençol de neblina
Lentamente expulsa pelo Sol
E com ela o nosso húmido frio.
Lá distante, no ponto mais alto de uma árvore que devia ser imponente
Única que conseguiu romper o denso e alvo manto
Duas bandeiras brancas que mal se distinguiam
Iniciaram um ritual de sinais!
Indecifráveis pêlos códices da guerra !
- Vamos ser atacados em breve, falavam os galões inexistentes !
- Montar de imediato a defesa :
- as secções aos seus postos !
- as bocas de fogo em posição de tiro directo !
- restante pessoal armado e nos pontos estratégicos !
- e depressa ! berrado !
Assim mesmo!...
Binóculos apontavam na direcção das bandeiras brancas
Obuses de tubos em direcção ao chão
caricatos !
Espingardas aperradas nas mãos das fardas e capacetes
Murmúrios e nervos-silêncios de velar-vivos
Tensão e irritação horas a fio !
à espera do ataque que demorava !
à espera do Sol que encharcado subia e pouco aquecia !
à espera da ordem de disparar que não se ouvia !
à espera do fim dos sinais que não paravam !
Como o tempo se arrastava ….!!!
nesta espera tensa de corda de viola
neste arrepio teimoso que vem…não sei que ponto cósmico
neste latejar de têmporas e acelerar de batidas de coração.
Duas horas se passaram ! ou mais ? ou menos?
As bandeiras agitaram-se com rapidez e no Ar
Leve e elegante
Uma bela ave se elevou
asas enxutas e consigo levou o nosso acumulado medo
Num profundo e geral suspiro de ALIVIO !
Reis Caçote
Kibaba, Úcua1961/14
13 - A FESTA DA GUERRA NA NOITE
Saco um sacoooo um daqui saco quatro
Saco um sacoooo um daqui saco quatro…
Kapa
Passo à escuta.
O breu húmido e viscoso da noite violada
Por este monocórdico código de guerra
Por este pesadelo roufenho do medo a querer ser silêncio
Por este búzio sem mar a bater nos limos dos tímpanos
Por este apelo de mãos crispadas na voz de fundo de poço
Por esta provocação à ansiedade de saber o que havia
Que queria
Por que clamava
Por que incitava cada um de nós
A chama-lhe mentalmente
Um chorrilho de insultos !
Saco quatro saco quatro daqui saco um
Saco quatro saco quatro daqui saco um
Kapa
Escuto.
Voz de sargento-jeepão-rádio:
Transformado em mãos trémulas e indecisas
Transformado em balão de raciocínio vazio
Com os pêlos dos braços eriçados e
Engolindo a irritação
Cantavam à desgarrada da vida
Este fado-canção de morte de sacos
Lenta… demasiado lenta como convém.
Saaaco um saaaco um daqui saco quatro
Etc etc etc…etc…
E a boca cada vez mais seca
A língua-pincel-de-frasco-de-cola a arrastar pela boca
- atenção: a água não pode ser bebida pode estar envenenada
… passo à escuta.
Este filho- da-puta está é a gozar connosco !
Porque não diz duma vez por todas o que quer !?
Saaaco um Saaaco um daqui saco quatro
Pede-se tiro de barragem para a concentração quinze
Confirmo : tiro de barragem para a concentração…
Kapa.
Porra ! Até que enfim diz o que querem !
No ar o silêncio de um mar de perguntas:
mas o que se estará a passar ?
mas onde fica a concentração quinze ?
mas que merda de segredos estes ?
mas que temos nós a ver com isto ?
mas qual Angola á nossa ?
Tenho é sede ! E sono ! E medo !
Saco quatro saco quatro daqui saco um
Entendido. Kapa .
A confusão aumentou na plataforma inferior
Onde já antes era grande, num ápice
Se transformou no hotel da barafunda:
ordens de boca em boca
corridas em todas as direções
cabeças enfiadas dentro dos capacetes
obscenidades em cascata no ar
em vez da barragem de tiro que o saco pedia
para a concentração.
Mas concentração de quê ?
O comandante dando-se ares de Virtuoso
Continuava a pensar que dirigia a guerra
E a sentir-se indispensável naquela questão de partilhas
“Angola é Nossa
Colocado do lado da “razão”de quem decidiu
… E quem nos perguntou a nós alguma coisa, porra ?!
E nessa linha de decisão ordena-pergunta :
Bateria pronta ?
Pronta, meu capitão ! O eco prossegue:
Primeira secção ? Pronta !
Segunda secção ? Pronta !
Etc etc etc etc etc ? pronta!
Oitava secção ? Pronta !
Atenção à ordem de fogo !
Primeira secção, fogooo…Bummm ecoando até…
Segunda secção, fogooo…bummm ! até a oitava …!
Ruído de ferros a deslizar.
O capelão-alferes atrás dos obuses e dos tiros
De missal em punho
Balbuciava uma oração, interrompida para se benzer
Mal nova série de disparos terminava
E continuava
Baixinho…
- está a estudar alguma tábua de tiro, meu alferes ?!
Não blasfemes !
e continuava a rezar
não sei se pela guerra se pela Paz
e a benzer
não sei se os mortos se os vivos
…BUMMM ! ai a minha cabeça !
Oitava secção fogo -BUMMM e segundos depois, lá longe,
Bumm!
A seguir o silêncio antes violado
O silêncio e o sono
O silêncio o sono e a sêde
O silêncio o sono a sede e o cigarro !
A voz caverna saco quatro insistia
A voz safada do saco três pedia
Ambas a noite toda
Com pequenos intervalos de gozo para iniciarmos o sono
Angola é nossa !
E logo de seguida o ribombar na noite
Como um pontapé no cérebro cá na Kibaba
Violência que o punho devolvia a soco
Pulverizada de ecos
Abafado e desesperante por desconhecida
Lá nas concentrações de sacos .
Quero ir para casa !
Quero ao menos ir para Luanda!
Quero ir ao Miramar e beber uma cerveja fresca !
Vendo a minha parte de Angola por vinte e cinco tostões !
Sons nos intervalos dos BUUUUNNNNs
Aos saltos a noite toda !
Reis Caçote
1961/14
14 - ALVORADA NA KISSAKALA
No ponto onde a picada se encarrapita para a sanzala
Entre dois postes de cimento a fingir de fronteira
E pendurada na corrente a ligar os postes
Uma tabuleta avisava:
“ todo o branco que se aproximar, morre !”
E morreu ! Com dezassete tiros no baixo ventre !
Desfeitos pénis e testículos!
Assim mesmo ! Lenda ou descrição factual nunca o soube !
Certa, certa era a promessa de lá ir
E a curiosidade de poder observar o que de falso ou verdadeiro existia.
A vontade de poder penetrar aquele manto verde de folhas
Aquele oceano de águas paradas
Calmo como sono de criança
Chegar bem perto daquele punho gigante
A socar as nuvens e o céu
Poder saber qual a bandeira que o punho segurava
E colocava nos binóculos da Kibaba…
E fui.
Partindo a meia tarde da Kibaba e de Angola
Para ali, mesmo em frente
A caminho da lenda e da morte
e da curiosidade
e da inconsciência
Transportando caçadores de improviso e de guerra.
- antes do anoitecer estamos lá
- são dois ou três quilómetros, é rápido
- apeamos os caçadores e voltamos para a Kibaba.
E por que não para Luanda ?!
E por que não para casa ?!
Sim, de Gê Eme Cê, que importa ?!
O que é preciso é voltar !
Dois ou três quilómetros …!!! Duzentos ou trezentos…!!!
O fim da tarde de chumbo apanhou-nos na picada
Lentamente percorrida
Constantemente parando
Olhando e vendo cada vez menos.
A noite derreteu o chumbo da tarde
Que começou a escorrer
Lesma pegajosa.
Os faróis incendiaram de luz as árvores laterais da picada
E derreteram mais o chumbo da noite, que ficou lodosa
O ar de forno por baixo de pântano não cabia nas narinas
Respirava pela boca como peixe fora d’água
E transpirava da pele para a camisa suja
E da camisa suja para o nojo da pele.
A picada apertava-se como linha de ferro na recta
E não se deixava penetrar pela luz dos faróis
E ajustava-se como garra no pescoço
E em volta do cantil quase vazio…
…ai tanta sede !
E a sensação de mergulho nas vísceras
de monstro pré-histórico trazia uma sensação
De soco no estômago e de vómito seco de ração de reserva !
E o motorista
Pequenino mas eficaz
Do lado da ribanceira e dos troncos
Monstros cortados a golpes de catana
De certeza pelo gigante de punho-rochedo
Ou vontade maior que o punho
Em que a bandeira empunhada cabia
Nos binóculos da Kibaba.
E eu que não consigo vomitar !...
Mas vomitar o quê ?!
o medo ? O mijo ?
Cá estão os dois pilares de cimento !
De corrente…nada !
De placa… nada !
Quem se atreveu a destruir, sem glória
Os fundamentos desta fronteira ?!
Quem pretendeu apagar … sem risco
Os vestígios da incapacidade de compreender a história ?!
A todos ofereço esta náusea e frustração que me invadem.
Não quero ser interveniente de uma história apagada !
Ouviram porra ?
Ouviram seus merdas ?
A ranger os dentes de ferros e travões
A gê eme cê parecia um alpinista picada acima
Gemendo pesada e dolorosamente,
Até que
estacionámos enfim
nesta cratera aberta na barragem negra da noite e da mata.
Mal se identificava o punho !...
Regressar à Kibaba àquela hora e com meia dúzia de
guerreiros-motoristas, não !
Há que tentar dormir
Na cabine da gê eme cê
Abraçado à pistola-metralhadora Uzi
Companheira inseparável na guerra
Testemunha dos meus pavores
Calada como convém
Leve e fria como convém.
Não conseguia adormecer naquela posição.
E lá vinham as recordações:
Luanda mal conhecida
A baía serena e fresca
Os camarões a escaldar na boca de piri-piri
A cerveja fresca… muita cerveja…
…ai tanta sede !...
O cinema à fresca do cimo da ravina a cair para a
Baía
Os rostos belos e tristes ou
Os olhos curiosos a olhar-nos de soslaio
As velhas sempre de pano vestidas
As crianças às costas das mães
Negras como elas
A esborracharem o nariz no sono cabeceado
O pregão da quitandeira bananoé.
É preciso dormir… … é preciso dormir … … é preci …
Rá tá tá rá tá tá rá tá tá rá tá tá rá tá tá
De todos os lados daquele acordar de dia !
Porra ! Agora é que é a sério – pensei :
A desenroscar-me na cabine
E a abrir a porta e saír
Agachado e pasmado
Olhei em volta aquele cerco de árvores frondosas e densas
Para a cubata destruída e chamuscada
Para o imbondeiro calcinado num dos lados
Negros : “ terroristas “ ou traidores, nada !
Nem o que se “entregara “ no inicio da noite
E me segredara que as aves que tinha morto no dia anterior
Não bastava serem depenadas, tinham de despir-se da pele para
…serem tragáveis
Só o rá tá tá rá tá tá continuava
Minutos a fio
Menos por certo que os que calculava
Mais, muito mais do que os desejava.
O rá tá tá das G3, que não vira antes.
O que se passa ? consegui perguntar a uma farda próxima e sem rosto
Que nem me olhou !!!
- Tiros de reconhecimento – respondeu.
Para acordar o punho, pensei !
Que olhei e não se parecia com um punho depois da
Alvorada na Kissakala!!!
Reis Caçote
Fazenda Kissakala1961/14
15 - GUERRA DO ABACAXI
Com um ar de nítido cansaço e sujidade
Visível na roupa e no rosto
Chegaram perto do meio dia.
Com eles chegava também
Lamentavelmente
Uma boa dose de destruição
Que era desespero também.
Notava-se no mau uso das catanas
A cortar pelo meio o caule oco das papaieiras
Na batalha campal improvisada
Com os abacaxi em crescimento
Verdes como nós nesta guerra de cansaço
De nervos e destruição.
Estiveram na Kibaba pouco tempo.
Apenas uma noite.
Na manhã seguinte teriam de ser levados
Serra acima
Para Gombo do Zombo.
Mal o dia clareou
Sem alvorada de rá tá tá G3
Descíamos já a breve colina em direcção à picada
Atrás da Panhard que encabeçava a coluna de Gê eme cês.
- Segure-se meu furriel ! grita o pequeno Tiago
Mal tive tempo de ver o que se passara
E tinha já batido violentamente com a cabeça
No tecto da cabine da GMC.
Tínhamos passado um pequeno ribeiro
Atravessado por troncos frágeis a servir de ponte
Que não suportaram o peso da auto metralhadora.
A GMC passou com dificuldade e por certo danificada.
E…
Nem para trás olhámos para ver o que se passaria com os outros !
O destino era em frente para o alto da serra.
Duas horas para percorrer dois quilómetros!
Duma paisagem deslumbrante
Serra acima
Num trilho que dispensava o volante
Bastava o acelerador ! A fundo !
A picada terminava bem no alto
E no ar
Jactos a passar e a picar
Na direcção de duas ou três humildes habitações
Onde descarregavam metralha aos milhares
Que tracejava no ar e depois ricocheteava
Em direcção às copas verdes da mata.
De repente
Qual cena de filme diabólico
Um enorme clarão e uma incandescente fogueira:
Era o napalm largado por um dos aviões
E de seguida o outro.
Os caçadores da guerra como cães amestrados
Corriam encosta abaixo
Loucos aos tombos
Saltando arbustos e espinheiros
Parecendo todos quererem chegar primeiro
Ao bairro de três casas
Agora só paredes e onde não podia haver viv’alma
Depois de uma noite a ser bombardeada pela artilharia da Kibaba
Pedida via rádio para a concentração do saaaaco quatro!
E depois de uma manhã de chuva de balas e napalm despejada
Pêlos Fiat mal dormidos
E o assalto dos caçadores como horda tresloucada !
Prefiro narrar esta canalhada de violência em cadeia.
Não tenho capacidade para fazer Poesia com lama!..
Reis Caçote
Entre Kibaba e Gombo do Zombo1961
16 - O REGRESSO DA GUERRA
O desejado dia de regresso a Luanda
Tal como o anúncio da ida para o “mato”
Surgiu inesperadamente
E sem a natural alegria
Porque outro
Como eu alheio a esta dolorosa provação
Iria ocupar o lugar
Involuntariamente por min usurpado.
Um breve adeus foi a despedida
aos que ficavam
contrariados mas ficavam
raivosamente mas ficavam.
Depois do vale de alto capim a esconder as bananeiras
Que a fita-traição tatuada na cabeça negra
Ensinara a procurar e escolher…
E ao punho na ponta do braço do gigante vestido de verde…
E à kissakala que recordei, ocupada de susto e de metralha esventrada…
E às campas vazias na gruta vegetal da orla da pequena aldeia…
- eles não abandonam os mortos, dizia-se ! –
E à safadeza-coragem do soldado (Bento?) que trepou ao punho
e substituiu a bandeira que o punho segurava
vermelha da liberdade
pela portuguesa da ocupação !...
E ao Úcua e sua macabra exposição
cada vez menor
da violência imposta pelo sisal e pela serração de madeiras
as cabeças que faltavam foram ocupar outro lugar agora
na memória da resistência…
E ao Caxito
com a nefanda recordação do soldado a gabar--se
da manutenção duma cópula à beira da estrada
com uma pobre negra que depois enganou
na retribuição do angolar…
E do rosto mais perfeitamente esculpido
pelo cinzel da natureza que lhe colou um filho nas costas..
E da Tentativa
e seu exército de vigiados seminus
de olhares tristes, uns e carregados, outros
a receberem o salário-insulto dos outros
de certeza a prometerem
em seu prevenido silêncio
um futuro liberto
E do comerciante branco, na colina
A cobrar a especulação de amostra de bife de veado
E a quem, como retaliação, subtraímos
A garrafa de licor e os ovos no aparador
Que transformámos em bolas de feira !...
E do Cacuaco
Não sem antes parar para afogar a sede
E este cansaço enorme
Em dois copos de cerveja…!
E depois, enfim
Este longo e terno abraço no olhar
À Luanda que só lá longe na Kibaba
Nos momentos de descanso da estrada
Nos pesadelos-sobressaltos de obus
Diurnos e noturnos
Aprendi a admirar e a amar
Na ausência
Que de Luanda
Noite e dia
Me preenchia
Embriagando-me os passos de saudade
Os sentidos de suas noites de afago
O olhar distante de seu arco-íris
De tons castanho-quentes da pele
As narinas de seus odores ativos
Os ouvidos de musicalidade de seus merengues e pregões
O coração que pulsava forte perante a certeza
Triste em alguns casos
De que tudo era passageiro.
Reis Caçote
1961
A MINHA GUERRA JÁ FOI, AS RECORDAÇÕES PERDURAM!
17 - A GUERRA DAS RECORDAÇÕES
De repente
Sem que o conseguisse evitar
Misturam-se em cascata
O ataque cerrado das melgas
Na guerra aérea da Petrofina da primeira noite
As salvas de tiros
Várias e diárias a saudar os que da guerra se libertavam
E iam descansar até quando
No cemitério mesmo em frente…
Com o rafeiro do quartel
A quem um sádico ou incauto pendurou na coleira
Um saguim trapezista habituado a treino constante a
Que o rafeiro não estava habituado
Preferindo a sombra e o fresco do mármore
O jockey criou para uso próprio
Sempre que o seu anexado canino não queria alinhar
Lhe apertava os testículos até à revolta
Depois a fúria e a sempre frustrada tentativa de abocanhar
O rafeiro sempre tentando e aí o saguim saltava para o lombo largo
E então sim passava a ser o jockey saguim!
O fuzilamento acidental executado pelo furriel
Que dava a primeira aula da Uzi que apenas conhecera
No balançar do Vera Cruz
Além dos feridos ainda atingiu o caldeirão da sopa
Coração atingido por duas balas que esguichavam e ameaçavam a
Nossa ração de sopa de feijão…
Com o casamento coletivo dos soldados nativos
Bem à maneira dos de Santo António de Lisboa
Com negras de tramo de laranjeira e
Com filhos pela mão e outros no ventre escondidos
Sapatos-forca abandonados durante a missa em parada militar
- meu alferes, então o ramo de laranjeira não é símbolo de cast..?!
- está calado, não sejas herege, resposta do capelão !
A gritar de dor a caminho do hospital onde se finou
Cabeça em triplicado perante o olhar solene dos deuses da medicina..
Com o comandante a cair no arame farpado da vedação
- se eu saltar também alguns conseguem ! fanfarrão
Agora ao lado da museológica peça de artilharia no chão
Sangrando da carne e da vaidade.
E o embarque obrigatório e a granel
Nas viaturas militares os angolanos do musseque
Acusados de fumarem liamba
Novidade!
E levados do São Paulo para destino desconhecido
Na noite!
Com o furriel apalermado e sonso
Que se gabava de ter violado
Acompanhando a descrição de risos cretinos
Uma criança negra de sete anos !
É a isto que chamam guerra?! Qual Angola é nossa Qual Merda !!!
Reis Caçote
1961/63- Angola
Viagem entre Caxito e Fazenda Kibab1961






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