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POEMA - A GUERRA DO ABACAXI




POESIA DA GUERRA



CONTINUANDO A REGISTAR


12º POEMA


GUERRA DO ABACAXI

Com um ar de nítido cansaço e sujidade
Visível na roupa e no rosto
Chegaram perto do meio dia.

Com eles chegava também
Lamentavelmente
Uma boa dose de destruição
Que era desespero também.

Notava-se no mau uso das catanas
A cortar pelo meio o caule oco das papaieiras
Na batalha campal improvisada
Com os abacaxi em crescimento
Verdes como nós nesta guerra de cansaço
De nervos e destruição.

Estiveram na Kibaba pouco tempo.
Apenas uma noite.
Na manhã seguinte teriam de ser levados
Serra acima
Para Gombo do Zombo.

Mal o dia clareou
Sem alvorada de rá  tá  tá  G3
Descíamos já a breve colina em direcção à picada
Atrás da Panhard que encabeçava a coluna de Gê eme cês.

- Segure-se meu furriel ! grita o pequeno Tiago
Mal tive tempo de ver o que se passara
E tinha já batido violentamente com a cabeça
No teto da cabine da GMC.
Tínhamos passado um pequeno ribeiro
Atravessado por troncos frágeis a servir de ponte
Que não suportaram o peso da auto metralhadora.
A GMC passou com dificuldade e por certo danificada.
E…
Nem para trás olhámos para ver o que se passaria com os outros !
O destino era em frente para o alto da serra.

Duas horas para percorrer dois quilómetros!
Duma paisagem deslumbrante
Serra acima
Num trilho que dispensava o volante
Bastava o acelerador ! A fundo !

A picada terminava bem no alto
E no ar
Jatos a passar e a picar
Na direção de duas ou três humildes habitações
Onde descarregavam metralha aos milhares
Que tracejava no ar e depois ricocheteava
Em direção às copas verdes da mata.
De repente
                        Qual cena de filme diabólico
Um enorme clarão e uma incandescente fogueira:
                        Era o napalm largado por um dos aviões
                        E de seguida o outro.
Os caçadores da guerra como cães amestrados
Corriam encosta abaixo
Loucos aos tombos
Saltando arbustos e espinheiros
Parecendo todos quererem chegar primeiro
Ao bairro de três casas
Agora só paredes e onde não podia haver viv’alma
Depois de uma noite a ser bombardeada pela artilharia da Kibaba
Pedida via rádio para a concentração do saaaaco quatro!
E depois de uma manhã de chuva de balas e napalm despejada
Pelos Fiat mal dormidos
E o assalto dos caçadores como horda tresloucada !

Prefiro narrar esta canalhada de violência em cadeia.

Não tenho capacidade para fazer Poesia com lama!...


Reis Caçote
1961/Setº


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