DOS PRAZERES, A RUA…
DOS PRAZERES, A RUA
I
São pouco mais de cem metros de rua – a dos Prazeres.
Paralela à de São Bento, tem a norte a fronteira da rua da Imprensa Nacional e a Sul, interrompendo-lhe o indeciso percurso, a rua Nova da Piedade.
Ainda hoje, passados mais de cinquenta anos, me interrogo sobre quem tenha sido o autor de tal criação toponímica.
Ou terá sido um brincalhão de mau gosto ou terá sido naquele local, certamente antes da sua transformação em rua, que algum nobre teve o seu primeiro momento de prazer; sem deixar que isto dos prazeres varia muito de pessoa para pessoa, mesmo que o limitássemos apenas ao género humano, como é hábito fazer-se, não sendo garantido que assim seja. Os não humanos, que raramente são desumanos, sendo bem maior a sua diversidade, o mais natural é que tenham a sua correspondente quantitativa e também qualitativa, isto é, todos ou quase todos terão o seu grau de prazer, porventura mais intenso e real do que o sentido, muitas vezes, do que aquele que o humano afirma ter; quando aperta a mão de um desconhecido e logo aduz o circunstancial “muito prazer”! Todos sabemos que é mentira!
Na maioria das vezes, e podia alinhar uma infinidade delas, não se sente prazer algum.
O que é de facto o prazer? Venha o mais iluminado dos pensadores, havendo agora altíssimas sapiências para assistir e certificar todos os casos e gostos, e me diga, de forma clara e sem mas, o que é de facto o prazer!
O tipo que faz uma boa acção (e não me deixarei cair na tentação de discorrer sobre o que é uma boa acção) e sente prazer por tê-la feito; o tipo que limpa o” sebo” a outro, mais ou menos de forma estranha e diz que sentiu grande prazer por o ter feito, mesmo que, no caso de ser julgado, se diga arrependido para que a pena seja atenuada, o que disse a seguir ao acto “que sentiu muito prazer no que fez” é que deve corresponder à verdade natural.
Ou talvez não: pode muito bem suceder, e sucede muitas vezes, é que o que hoje nos dá prazer amanhã o não dará tanto. O prazer de hoje não tem que ser uma sensação definitiva e imutável, como quase tudo na vida.
Isto para complicar a vida no caso de algum pensador aceitar o desafio.
Voltando ao local onde a rua dos Prazeres ganhou forma e nome:
Era muito bem capaz de ter sido um espaço aprazível, bastando olhar e pensar em tudo o que a cerca: o relevo daquela zona deve ter seduzido os abastados senhores de então e por ali mandaram construir seus palácios, pelas encostas que vão de S. Bento à Estrela ou de S. Bento à rua da Escola Politécnica. Uns mais “nobres” outros mais pobres, eram vários, agora quase abafados pela construção do casario urbano.
E se palácios há é porque gente abastada houve. De bom gosto alguns e outros de duvidosa escolha, mas em ambos os casos revelavam um requintado prazer uns e outros, que de certeza os houve, um requentado gosto.
A questão que me coloca interrogações é o tipo de rua; incaracterística de uma ponta à outra, socalco aberto na ladeira que vai de São Bento à Escola Politécnica, com prédios vulgaríssimos, excepto um ou dois que foram embelezados exteriormente com azulejos de arte pouco clara e que se usaria na época; e já a descer para a Rua Nova da Piedade, do lado direito, um edifício de dois pisos, sólido, apalaçado, que há cinquenta anos servia de dormitório a seminaristas no primeiro andar e no rés-do-chão uma pequena célula da Torre do Tombo. Se não estivesse deslocado do tema que me propus abordar e não fosse revelador de uma mal disfarçada ignorância, sempre me interrogaria o porquê da designação “Torre do Tombo”?! De torre nada tinha porque ficava ao nível do passeio e do tombo é que nem pensar porquê, se tombo sempre ouvi chamar a uma queda mais ou menos aparatosa, outra que também não joga bem com a minha esquadria mental, porque se é hábito dizer-se que este ou aquele cidadão foi recebido com grande aparato…em que ficamos aparato e aparatosa não são frutos da mesma árvore?! Os linguistas sempre tão cuidadosos em colocar os vocábulos no lugar certo do puzzle que é uma qualquer língua! Mas fiquemos por aqui, que não está a dar qualquer prazer gastar neurónios com um duvidoso parentesco gramatical, quando o que tento é perceber ao menos um dos muitos ou pelo menos vários prazeres que estiveram na origem deste toponímico.
Todo o sobrante edificado era duma vulgaridade total, como se os prazeres que ali tiveram lugar fossem de “trazer por casa” ou então foram perdendo qualidade com o decorrer dos tempos, desde o momento em que terão ocorrido ou sentido até à execução das obras e formação da rua.
Não será por acaso que a única via que com a rua dos Prazeres entronca ou lhe é perpendicular se não chama, como em quase todos os casos doutras ruas da cidade, Travessa dos Prazeres e sim Travessa do Cego!
Seriam os prazeres tão rectilíneos que não permitiam derivações? Ou foram tão recatados ou promíscuos que só por um cego podiam ser “vistos”?! Ou ainda, hipótese que me seduz irresistivelmente, o principal beneficiário dos havidos prazeres sem nome terá sido um invisual e que, pela travessa chegava ao local dos prazeres! E como invisual que era não quis saber do traçado nem da arquitectura que foram adoptados na rua hoje dos Prazeres!
Qualquer das hipóteses considerada e tantas outras variáveis possíveis, incluindo a real, não esteve na base da abordagem à rua dos Prazeres. O que me mobilizou foram as pessoas, não todas como é de calcular, mas as mais que suficientes para justificarem a atenção do escriva e, por que não, até um estudo profundo, este sim levado a cabo por alguém com gosto e saber para o fazer.
Não um daqueles técnicos que tudo resume a estatística, mas sim do que nos Prazeres era verbo e sensibilidade.
II
Havia apenas três estabelecimentos comerciais se a memória me não trai, passados que são cinquenta anos sobre a minha tentativa de ter algum prazer na rua deles: uma mercearia, onde trabalhei alguns anos, poucos, propriedade de um senhor de avançada idade, natural da vizinha Espanha, galego por hábito de designação portuguesa (eram sempre os galegos), sofrendo de uma doença grave ou agravada no aparelho urinário, por fim já acamado e algaliado; uma taberna e carvoaria, propriedade de uma senhora de meia-idade, viúva; uma pequena drogaria já perto da Rua Nova da Piedade e, curiosamente, uma pequena” fábrica” de esquentadores, equipamento que, com a chegada do gás público, passou a ter grande procura. Eram feitos a partir de materiais que o mercado já fornecia e que os operários só moldavam, soldavam, pintavam e montavam. O nome do esquentador era “Elga”,em homenagem à filha do empresário.
A oficina situava-se na traseira de um prédio de habitação, onde morava o pequeno industrial e família.
A certa altura, uns meses antes de eu deixar a Rua dos Prazeres, na esquina norte da Travessa do Cego e Rua dos Prazeres, abriu um novo estabelecimento, no rés-do-chão de um prédio de três pisos acabado de restaurar. Um talho. E para espanto dos moradores periféricos a etiqueta que apareceu dizia: Talho- Carne de Cavalo-Equídeos.
Se a uns repugnava a ideia de comer carne de cavalo, vá-se lá saber porquê, a outros, de sensibilidades mais “democráticas” e estômagos menos intolerantes, a curiosidade era maior. E outros ainda, sem manifestações de qualquer espécie, era a bolsa quem esbatia os preconceitos, apenas o preço ditava o gosto.
A sociedade era de dois irmãos e o negócio não era destinado a fazer fortuna, pois nunca recebia mais do que meia rês e alguns dias acabava antes da hora do almoço.
Não sabia então como hoje não sei ainda a razão de ser mais barata que a de vaca e devo ficar sem saber porque os centros comerciais não terem à venda tal iguaria.
Ao terceiro ou quarto dia da inauguração, pelo telefone da mercearia do senhor José Rodriguez, dizia o talhante para o irmão-sócio:
- hoje calhou-me uma parte de muar, tenrinha, que desapareceu num instante!
Assim fiquei a saber que o bife que tinha ingerido ao almoço era de mula, ou macho e não de cavalo-equídeo!
III
Entre os prédios da Rua dos Prazeres e os da Rua de São Bento existia e existe um espaço de perto de cinquenta metros, num declive acentuado, onde surgiu um pátio, com duas ruas paralelas, o Pátio dos Caldeireiros e que era habitado por famílias não já de caldeireiros, mas de uma mescla humana onde predominavam as vendedeiras de peixe ao domicílio, as ditas varinas a gritar pelas ruas de Lisboa “ Olhó carapau fresquinho! Olhó cachucho! Olhá pescada do alto!” “Venha abaixo, freguesa”.
O número quarenta e nove da Rua dos Prazeres que devia ser a entrada de um edifício ou loja, é ainda hoje a entrada para um condomínio fechado, não daqueles que fazem sonhar todo o urbanóide, mas que apenas os bem sucedidos nas artes do dinheiro têm acesso! Este condomínio não tem porteiro fardado e o portão está sempre escancarado. Um mundo sem fronteiras, que ainda assim encontrei há dois dias quando, propositadamente, me desloquei à capital para ver o que teria sucedido à Rua dos Prazeres neste meio século decorrido.
Não terei cruzado com alguém conhecido e se tal sucedeu, as minhas rugas e as dele ou dela, criaram um disfarce perfeito para viver incógnito.
No pátio dos Caldeireiros moravam: um embutidor de móveis de estilo, um artista, mas que só trabalhava quando o “cacau” faltava; um acabador de tapetes de cairo para os pés dos condutores de automóveis e camiões, depois de desenhado o encaixe dos pedais o cairo era cortado e acabado, entregava-o ao comerciante, um dos três com loja aberta no sobe e desce da Rua de São Bento, quase em frente ao Parlamento, então Assembleia Nacional. A certa altura os três comerciantes declararam guerra de preços e no mesmo dia chegaram a fazer desconto de setenta por cento, quando o normal seria de dez para casos de cliente especial.
Como em todas as guerras, depois de muito sangue derramado, neste caso era uma sangria nos lucros que passaram a ser prejuízos, resolveram depor as “armas” e na declaração final da mesa redonda ficou a constar que os preços voltariam à normalidade, todos iguais, cartelizando o comércio dos tapetes de cairo, concorrendo apenas pela qualidade ou simpatia do atendimento. Ainda nem sequer se pensava na Alta Autoridade para a Concorrência, nem Baixa, que só veio a ser criada meio século volvido, pelos iluminados de então, com o nome de ASAE-Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, mas parece ter valido a pena: o mercado estão são e escorreito e como sabem tão bem dizer os magos da economia “o mercado vive em pleno nas boas graças da liberalização”, onde todos são sérios, os “vigas” acabaram; morava também um bombeiro que quase todos os dias recebia na Corporação um bilhete para o cinema que o Cinearte oferecia e ele aproveitava para ir ver, ou melhor, para ir dormir, os filmes ficavam em cartaz semanas e até meses ou anos seguidos. Só não gosto dos intervalos, dizia ele, porque sempre me acordam. Com o mesmo prazer ele dormia a soneca ao som de tiros e trovões como se fossem românticos beijos trocados às escondidas, os de beijos mais descarados ou com cenas mais atrevidas eram proibidos por ofenderem a moral pública. Mal começava a música já o Silvestre dormia, por só aguentar os desenhos animados que sempre eram aperitivo do filme e assim não via os belos salões profusamente iluminados para bem se verem aqueles vestidos requintados das damas e os fraques dos cavalheiros a rodopiarem à volta do salão em Straussadas valsas onde os embevecidos olhares eram lindos de ver. Se chamavam os musicais, mas para o bombeiro podiam chamar-lhe o pior dos nomes desde que o não acordassem.
Mas no pátio morava também o “Lóró”! Miudo de uns quatro anos, filho de um estivador e de uma varina, licenciado em todo o tipo de palavrão, pela Universidade do Páteo e explicações nas mais difíceis disciplinas que os bêbedos lhe ensinavam, de borla, na taberna da viúva.
Havia disputas vivíssimas entre o Lóró e o neto da viúva, um ano mais velho, mas que aquele sempre ganhava por ter um campus mais variado e ser um desbocado nato, enquanto que o Afonso estava sempre a ser recriminado “isso não se diz” e “tem cuidado com a língua!”, etc., quando esta tentava intervir na “desgarrada” afadistada dos rufias desavindos. O Lóró, ao ser corrido sem acabar a peleja e a caminho do quarenta e nove, ia-se voltando para trás e como despedida: “velha viúva, vá p’ró caralho que a foda!
Gargalhada da assistência que promovia as disputas entre os putos e que servia de “tapa” para uma ou mais rodadas de copos de tinto. E com isto a viúva também lucrava e não era pouco.
Na tasca, quase sem interrupção, juntava-se o grupinho de viradores de copos e que discutiam de tudo: de futebol, até aos gritos; de mulheres, até ao insulto mais soez e só de política é que de discussão passava a falação à boca pequena, até porque bem perto morava um agente da policia secreta e não sei quantos informadores, também designados na gíria por bufos, desconfiava-se. Divertiam-se a seu modo ao trazerem à praça o Marquês de Pombal que, como eu, só conheciam lá no alto da coluna, a tomar conta do leão, mas que tinham a sorte de, mesmo ao lado da mercearia e a uns vinte metros da taberna, morar no rés-do-chão um cavalheiro a quem tinham posto o nome de Sebastião José de Carvalho e Mello, exactamente o do marquês da rotunda. Quando algum novo frequentador da tasca duvidava e se comprometesse a pagar uma rodada, eles iam chamá-lo, o marquês, e ele lá vinha, de bilhete de Identidade em punho, pronto a emborcar mais um copo. Aqui está! Sabe ler? Alguns não sabiam mesmo e lá ouviam o marquês, em voz de falsete, mais que envinagrada ao fim do dia, impante, ler o seu próprio nome, já quase apagado de tantas vezes ser mostrado com mãos suadas e avinhadas.
E muito respeitinho, dizia ele a brincar! Mas logo um se ausentava, quando havia copofonistas novos, para ir chamar o Higino, que morava na Travessa do Cego, juntando-se ao Francisco e ao Craveiro que já lá estavam e o Lopes que, do prédio em frente, assistia à reunião.
Quando o grupo estava reunido, o Sebastião José de Carvalho e Mello, agora fora do protagonismo, divertia-se, atirando em jeito de provocação, que eram precisos quatro bêbedos para formarem o presidente da República, que nada de jeito fazia e ele sozinho representava o Marquês que de Lisboa tudo fez!
O presidente “eleito” era então o general Francisco Higino Craveiro Lopes e que os fregueses da tasca da viúva, quatro deles, o Lopes tinha-se juntado à reunião, juntavam os nomes aos copos e alí tínhamos o presidente de então e o Marquês, em franca cavaqueira de taberna, duzentos anos volvidos.
E até ao fecho da tasca ali tínhamos o presidente em exercício e o Marquês em “carne e osso”, mais osso que carne, já que o Sebastião era fracote de carnes. De língua, sim, era um espanto!
IV
As birras do Afonso, o neto da viúva da taberna eram frequentes, certamente só agravadas, aos olhos de pedopsiquiatras de então e outros especialistas da área da miudagem, mas nunca a avó, farta de aturar outras de tudo o que era bêbedo e outros conflituosos (a tasca não é propriamente uma igreja e o facto de ao lado morarem os seminaristas não lhe traziam qualquer protecção), foi capaz de lidar com as birras do neto ou com elas pactuar. Ele, inicialmente com linguagem normal, pedia qualquer coisa que lhe vinha à ideia, depois exigia-a aos gritos quando a avó lha recusava; o Afonso fazia cenas de teatro, gritadas a maioria das vezes, só para chatear a avó.
A pior a que assisti, eu e vizinhança mais próxima e que era quase toda a rua, teve a ver com um combóio que a avó lhe comprou, só que não era aquele que o Afonso queria; ele queria um a pilhas, três ou quatro vezes mais caro e que a avó se recusava a dar-lhe. O Afonso gritava que não era aquele que queria e a avó gritava que nem que a matassem lho dava, ele atirava-se para o alcatrão da rua a espernear, enfim uma cena de pôr os nervos em franja!
As varandas e janelas das redondezas estavam já ocupadas por mirones, em algumas se juntavam dois e três a assistirem ao espectáculo de rua.
Alguns minutos se passaram e já tudo comentava e criticava, uns tomando o partido da avó, outros o do Afonso, mas a cena parecia não ter fim!
Vimos sair da camarata dos seminaristas um dos que antes esteve numa das janelas com varanda a assistir e, dirigindo-se ao Afonso que na rua esperneava e um táxi buzinava para passar o que ainda mais confusão criava, pegou-lhe num braço ajudou-o a pôr-se em pé, colocando-se de cócoras junto ao Afonso e passando-lhe um braço pelos ombros, segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido, ouvindo-se apenas a parte final: “percebeste?” e o Afonso sem piar acenou que sim.
O seminarista voltou à camarata e o Afonso, de cabeça baixa, caminhava vagarosamente para junto da avó a quem disse que antes queria aquele comboio que a avó lhe tinha dado.
Assistência em pasmo! Sussurravam uns “é preciso saber lidar com os miúdos; outros cochichavam que os padres, mesmo que ainda o não fossem, devem ter o dom de acalmar os violentos. Uma panóplia de comentários, na generalidade favoráveis à atitude calmante do “padre” sobre o Afonso.
Da mesma forma discreta como entrou em cena o seminarista, assim regressou aos bastidores daquele teatro vivíssimo que era a Rua dos Prazeres.
Aos sussurrantes comentadores, passado o tempo do espanto, veio logo o da curiosidade e foram-se chegando para a porta da tasca onde o Afonso, contrariado, ou em linguagem adulta, vencido mas não convencido, ia olhando para o combóio, mais que amolgado de tanto pontapé ter levado antes da intervenção do futuro padre. A avó, grata pela “deixa” imprevista do futuro prelado, mas também curiosa, perguntou ao Afonso o que o senhor lhe tinha dito ou prometido para ele passar a aceitar o combóio rejeitado?
- Disse que ou eu aceitava este combóio e parava com a birra ou levava um par de estaladas de que nunca mais me esqueceria! Confessou o Afonso.
Todos, sem excepção, riram com vontade, muitos deles tapando a boca ou para abafar a gargalhada que se antevia sonora, ou então para o pessoal não ver aquela gruta onde poucos dentes havia e que falta não faziam para emborcar copos de tinto.
Quem continuava a achar graça era o assustado Afonso, que deve recordar hoje, como eu recordo, aquela aula de eficaz pedagogia que recebeu em plena rua dos Prazeres.
O Lóró, que também assistiu a todo o espectáculo da entrada do condomínio, atirou com duas ou três asneiras bem sonantes, ouvindo dos mais velhos a ameaça de que um dia destes chamavam o seminarista para lhe meter a língua na linha!
- Eu mando-o logo p’ró caralho! Responde o Lóró a caminho de casa, acompanhado de uma outra sonora gargalhada da avinhada assistência.
Mal ele sabia que, poucas semanas mais tarde, teria de enfrentar, não aquele candidato a padre, mas outro, já formado, que o iria baptizar.
Os pais do Loró, por qualquer razão que não conheço, decidiram iniciar o miúdo, agora com cinco anos, nas boas e santas práticas cristãs, com o primeiro dos sacramentos, o baptismo.
Quando o marcado dia chegou, todos aperaltados, pais padrinhos e convidados, sobretudo o Loró, habituado a correr a “Via sacra” do páteo, Rua dos Prazeres e periferia, sempre de pés descalços, estava hoje de domingo vestido e calçado a rigor! Mas alegre não estava, bem pelo contrário e é fácil imaginar porquê, aperreado dentro daquela farpela que nunca usara e pés enjaulados nuns sapatos que lhe roubaram toda a liberdade!
Entre o espanto e a curiosidade lá subiram a Rua da Imprensa Nacional até à igreja de S. Mamede, penso ser este o seu nome, situada no inicio da Rua daquele santo nome, que parte da Rua da Escola Politécnica e vai encontrar-se com a Rua do Salitre, fazendo ambas, de “mãos” dadas o resto do percurso até à Avenida da Liberdade.
Tudo anormal, mas aparentando normalidade. Os pais, apreensivos, mesmo depois do curso de formação ministrado ao Loró, com várias disciplinas de recomendações várias, só não havendo ensaios prévios por falta de disponibilidade do protagonista, sempre ocupado a aprender como se vive.
O senhor padre vai fazer mais ou menos assim: dizer umas orações, desenhar-te na testa uma cruz com óleo, na língua uma pitada de sal…! Faça o que fizer, reforçava a mãe, não digas nada, pelo amor de Deus!
Desconfiado, o Loró a tudo acenou sim, com a cabeça.
Só que, nestas coisas, como em tantas outras na vida, algo fica por dizer nalguns casos e por aprender na maioria deles, ou por falta de experiência dos dizentes ou incapacidade dos ouvintes e o inesperado, no momento certo, sucede, exactamente quando menos se espera.
O Loró aceitou, sem o mínimo gesto de rebelião, a unção do santos óleos, o sal da vida fê-lo olhar de lado; às orações não ligou, as que ele sabia, de cor e salteadas, eram outras, que ele recitava com entoações de vários matizes, aprendidas naquele microcosmos do pátio e cercanias.
Até acedeu, sem protestar, a debruçar-se sobre a pia baptismal, tentando perceber o que estava ou iria passar-se, pois não recordava aquele pormenor ter sido incluído no curso de formação pré-baptismal. A mãe ficou inquieta!
Eis que a fria água-benta o atinge como um raio! Deu um safanão, endireitando-se e ao mesmo tempo que procurava libertar-se das mãos que o amparavam, atirou pelo ar a concha de prata que o pároco usara, a baixela e os santos óleos evadiram-se das mãos do sacristão, e um grito de revolta se fez ouvir:
- Então este caralho está a botar-me água fria na cabeça! E fugiu igreja pela porta da igreja!
Enquanto a mãe corria atrás do Loró, na assistência via-se gente a tapar a boca, tentando suster a gargalhada e outra em passo acelerado em direção à porta, não à procura do Loró que já devia descer a Rua Nova de S. Mamede, enquanto junto à pia um paramentado “João Baptista” de boca aberta de espanto e em silêncio, talvez a pensar no longínquo rio Jordão, onde Jesus fora batizado.
DOS PRAZERES, A RUA
I
São pouco mais de cem metros de rua – a dos Prazeres.
Paralela à de São Bento, tem a norte a fronteira da rua da Imprensa Nacional e a Sul, interrompendo-lhe o indeciso percurso, a rua Nova da Piedade.
Ainda hoje, passados mais de cinquenta anos, me interrogo sobre quem tenha sido o autor de tal criação toponímica.
Ou terá sido um brincalhão de mau gosto ou terá sido naquele local, certamente antes da sua transformação em rua, que algum nobre teve o seu primeiro momento de prazer; sem deixar que isto dos prazeres varia muito de pessoa para pessoa, mesmo que o limitássemos apenas ao género humano, como é hábito fazer-se, não sendo garantido que assim seja. Os não humanos, que raramente são desumanos, sendo bem maior a sua diversidade, o mais natural é que tenham a sua correspondente quantitativa e também qualitativa, isto é, todos ou quase todos terão o seu grau de prazer, porventura mais intenso e real do que o sentido, muitas vezes, do que aquele que o humano afirma ter; quando aperta a mão de um desconhecido e logo aduz o circunstancial “muito prazer”! Todos sabemos que é mentira!
Na maioria das vezes, e podia alinhar uma infinidade delas, não se sente prazer algum.
O que é de facto o prazer? Venha o mais iluminado dos pensadores, havendo agora altíssimas sapiências para assistir e certificar todos os casos e gostos, e me diga, de forma clara e sem mas, o que é de facto o prazer!
O tipo que faz uma boa acção (e não me deixarei cair na tentação de discorrer sobre o que é uma boa acção) e sente prazer por tê-la feito; o tipo que limpa o” sebo” a outro, mais ou menos de forma estranha e diz que sentiu grande prazer por o ter feito, mesmo que, no caso de ser julgado, se diga arrependido para que a pena seja atenuada, o que disse a seguir ao acto “que sentiu muito prazer no que fez” é que deve corresponder à verdade natural.
Ou talvez não: pode muito bem suceder, e sucede muitas vezes, é que o que hoje nos dá prazer amanhã o não dará tanto. O prazer de hoje não tem que ser uma sensação definitiva e imutável, como quase tudo na vida.
Isto para complicar a vida no caso de algum pensador aceitar o desafio.
Voltando ao local onde a rua dos Prazeres ganhou forma e nome:
Era muito bem capaz de ter sido um espaço aprazível, bastando olhar e pensar em tudo o que a cerca: o relevo daquela zona deve ter seduzido os abastados senhores de então e por ali mandaram construir seus palácios, pelas encostas que vão de S. Bento à Estrela ou de S. Bento à rua da Escola Politécnica. Uns mais “nobres” outros mais pobres, eram vários, agora quase abafados pela construção do casario urbano.
E se palácios há é porque gente abastada houve. De bom gosto alguns e outros de duvidosa escolha, mas em ambos os casos revelavam um requintado prazer uns e outros, que de certeza os houve, um requentado gosto.
A questão que me coloca interrogações é o tipo de rua; incaracterística de uma ponta à outra, socalco aberto na ladeira que vai de São Bento à Escola Politécnica, com prédios vulgaríssimos, excepto um ou dois que foram embelezados exteriormente com azulejos de arte pouco clara e que se usaria na época; e já a descer para a Rua Nova da Piedade, do lado direito, um edifício de dois pisos, sólido, apalaçado, que há cinquenta anos servia de dormitório a seminaristas no primeiro andar e no rés-do-chão uma pequena célula da Torre do Tombo. Se não estivesse deslocado do tema que me propus abordar e não fosse revelador de uma mal disfarçada ignorância, sempre me interrogaria o porquê da designação “Torre do Tombo”?! De torre nada tinha porque ficava ao nível do passeio e do tombo é que nem pensar porquê, se tombo sempre ouvi chamar a uma queda mais ou menos aparatosa, outra que também não joga bem com a minha esquadria mental, porque se é hábito dizer-se que este ou aquele cidadão foi recebido com grande aparato…em que ficamos aparato e aparatosa não são frutos da mesma árvore?! Os linguistas sempre tão cuidadosos em colocar os vocábulos no lugar certo do puzzle que é uma qualquer língua! Mas fiquemos por aqui, que não está a dar qualquer prazer gastar neurónios com um duvidoso parentesco gramatical, quando o que tento é perceber ao menos um dos muitos ou pelo menos vários prazeres que estiveram na origem deste toponímico.
Todo o sobrante edificado era duma vulgaridade total, como se os prazeres que ali tiveram lugar fossem de “trazer por casa” ou então foram perdendo qualidade com o decorrer dos tempos, desde o momento em que terão ocorrido ou sentido até à execução das obras e formação da rua.
Não será por acaso que a única via que com a rua dos Prazeres entronca ou lhe é perpendicular se não chama, como em quase todos os casos doutras ruas da cidade, Travessa dos Prazeres e sim Travessa do Cego!
Seriam os prazeres tão rectilíneos que não permitiam derivações? Ou foram tão recatados ou promíscuos que só por um cego podiam ser “vistos”?! Ou ainda, hipótese que me seduz irresistivelmente, o principal beneficiário dos havidos prazeres sem nome terá sido um invisual e que, pela travessa chegava ao local dos prazeres! E como invisual que era não quis saber do traçado nem da arquitectura que foram adoptados na rua hoje dos Prazeres!
Qualquer das hipóteses considerada e tantas outras variáveis possíveis, incluindo a real, não esteve na base da abordagem à rua dos Prazeres. O que me mobilizou foram as pessoas, não todas como é de calcular, mas as mais que suficientes para justificarem a atenção do escriva e, por que não, até um estudo profundo, este sim levado a cabo por alguém com gosto e saber para o fazer.
Não um daqueles técnicos que tudo resume a estatística, mas sim do que nos Prazeres era verbo e sensibilidade.
II
Havia apenas três estabelecimentos comerciais se a memória me não trai, passados que são cinquenta anos sobre a minha tentativa de ter algum prazer na rua deles: uma mercearia, onde trabalhei alguns anos, poucos, propriedade de um senhor de avançada idade, natural da vizinha Espanha, galego por hábito de designação portuguesa (eram sempre os galegos), sofrendo de uma doença grave ou agravada no aparelho urinário, por fim já acamado e algaliado; uma taberna e carvoaria, propriedade de uma senhora de meia-idade, viúva; uma pequena drogaria já perto da Rua Nova da Piedade e, curiosamente, uma pequena” fábrica” de esquentadores, equipamento que, com a chegada do gás público, passou a ter grande procura. Eram feitos a partir de materiais que o mercado já fornecia e que os operários só moldavam, soldavam, pintavam e montavam. O nome do esquentador era “Elga”,em homenagem à filha do empresário.
A oficina situava-se na traseira de um prédio de habitação, onde morava o pequeno industrial e família.
A certa altura, uns meses antes de eu deixar a Rua dos Prazeres, na esquina norte da Travessa do Cego e Rua dos Prazeres, abriu um novo estabelecimento, no rés-do-chão de um prédio de três pisos acabado de restaurar. Um talho. E para espanto dos moradores periféricos a etiqueta que apareceu dizia: Talho- Carne de Cavalo-Equídeos.
Se a uns repugnava a ideia de comer carne de cavalo, vá-se lá saber porquê, a outros, de sensibilidades mais “democráticas” e estômagos menos intolerantes, a curiosidade era maior. E outros ainda, sem manifestações de qualquer espécie, era a bolsa quem esbatia os preconceitos, apenas o preço ditava o gosto.
A sociedade era de dois irmãos e o negócio não era destinado a fazer fortuna, pois nunca recebia mais do que meia rês e alguns dias acabava antes da hora do almoço.
Não sabia então como hoje não sei ainda a razão de ser mais barata que a de vaca e devo ficar sem saber porque os centros comerciais não terem à venda tal iguaria.
Ao terceiro ou quarto dia da inauguração, pelo telefone da mercearia do senhor José Rodriguez, dizia o talhante para o irmão-sócio:
- hoje calhou-me uma parte de muar, tenrinha, que desapareceu num instante!
Assim fiquei a saber que o bife que tinha ingerido ao almoço era de mula, ou macho e não de cavalo-equídeo!
III
Entre os prédios da Rua dos Prazeres e os da Rua de São Bento existia e existe um espaço de perto de cinquenta metros, num declive acentuado, onde surgiu um pátio, com duas ruas paralelas, o Pátio dos Caldeireiros e que era habitado por famílias não já de caldeireiros, mas de uma mescla humana onde predominavam as vendedeiras de peixe ao domicílio, as ditas varinas a gritar pelas ruas de Lisboa “ Olhó carapau fresquinho! Olhó cachucho! Olhá pescada do alto!” “Venha abaixo, freguesa”.
O número quarenta e nove da Rua dos Prazeres que devia ser a entrada de um edifício ou loja, é ainda hoje a entrada para um condomínio fechado, não daqueles que fazem sonhar todo o urbanóide, mas que apenas os bem sucedidos nas artes do dinheiro têm acesso! Este condomínio não tem porteiro fardado e o portão está sempre escancarado. Um mundo sem fronteiras, que ainda assim encontrei há dois dias quando, propositadamente, me desloquei à capital para ver o que teria sucedido à Rua dos Prazeres neste meio século decorrido.
Não terei cruzado com alguém conhecido e se tal sucedeu, as minhas rugas e as dele ou dela, criaram um disfarce perfeito para viver incógnito.
No pátio dos Caldeireiros moravam: um embutidor de móveis de estilo, um artista, mas que só trabalhava quando o “cacau” faltava; um acabador de tapetes de cairo para os pés dos condutores de automóveis e camiões, depois de desenhado o encaixe dos pedais o cairo era cortado e acabado, entregava-o ao comerciante, um dos três com loja aberta no sobe e desce da Rua de São Bento, quase em frente ao Parlamento, então Assembleia Nacional. A certa altura os três comerciantes declararam guerra de preços e no mesmo dia chegaram a fazer desconto de setenta por cento, quando o normal seria de dez para casos de cliente especial.
Como em todas as guerras, depois de muito sangue derramado, neste caso era uma sangria nos lucros que passaram a ser prejuízos, resolveram depor as “armas” e na declaração final da mesa redonda ficou a constar que os preços voltariam à normalidade, todos iguais, cartelizando o comércio dos tapetes de cairo, concorrendo apenas pela qualidade ou simpatia do atendimento. Ainda nem sequer se pensava na Alta Autoridade para a Concorrência, nem Baixa, que só veio a ser criada meio século volvido, pelos iluminados de então, com o nome de ASAE-Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, mas parece ter valido a pena: o mercado estão são e escorreito e como sabem tão bem dizer os magos da economia “o mercado vive em pleno nas boas graças da liberalização”, onde todos são sérios, os “vigas” acabaram; morava também um bombeiro que quase todos os dias recebia na Corporação um bilhete para o cinema que o Cinearte oferecia e ele aproveitava para ir ver, ou melhor, para ir dormir, os filmes ficavam em cartaz semanas e até meses ou anos seguidos. Só não gosto dos intervalos, dizia ele, porque sempre me acordam. Com o mesmo prazer ele dormia a soneca ao som de tiros e trovões como se fossem românticos beijos trocados às escondidas, os de beijos mais descarados ou com cenas mais atrevidas eram proibidos por ofenderem a moral pública. Mal começava a música já o Silvestre dormia, por só aguentar os desenhos animados que sempre eram aperitivo do filme e assim não via os belos salões profusamente iluminados para bem se verem aqueles vestidos requintados das damas e os fraques dos cavalheiros a rodopiarem à volta do salão em Straussadas valsas onde os embevecidos olhares eram lindos de ver. Se chamavam os musicais, mas para o bombeiro podiam chamar-lhe o pior dos nomes desde que o não acordassem.
Mas no pátio morava também o “Lóró”! Miudo de uns quatro anos, filho de um estivador e de uma varina, licenciado em todo o tipo de palavrão, pela Universidade do Páteo e explicações nas mais difíceis disciplinas que os bêbedos lhe ensinavam, de borla, na taberna da viúva.
Havia disputas vivíssimas entre o Lóró e o neto da viúva, um ano mais velho, mas que aquele sempre ganhava por ter um campus mais variado e ser um desbocado nato, enquanto que o Afonso estava sempre a ser recriminado “isso não se diz” e “tem cuidado com a língua!”, etc., quando esta tentava intervir na “desgarrada” afadistada dos rufias desavindos. O Lóró, ao ser corrido sem acabar a peleja e a caminho do quarenta e nove, ia-se voltando para trás e como despedida: “velha viúva, vá p’ró caralho que a foda!
Gargalhada da assistência que promovia as disputas entre os putos e que servia de “tapa” para uma ou mais rodadas de copos de tinto. E com isto a viúva também lucrava e não era pouco.
Na tasca, quase sem interrupção, juntava-se o grupinho de viradores de copos e que discutiam de tudo: de futebol, até aos gritos; de mulheres, até ao insulto mais soez e só de política é que de discussão passava a falação à boca pequena, até porque bem perto morava um agente da policia secreta e não sei quantos informadores, também designados na gíria por bufos, desconfiava-se. Divertiam-se a seu modo ao trazerem à praça o Marquês de Pombal que, como eu, só conheciam lá no alto da coluna, a tomar conta do leão, mas que tinham a sorte de, mesmo ao lado da mercearia e a uns vinte metros da taberna, morar no rés-do-chão um cavalheiro a quem tinham posto o nome de Sebastião José de Carvalho e Mello, exactamente o do marquês da rotunda. Quando algum novo frequentador da tasca duvidava e se comprometesse a pagar uma rodada, eles iam chamá-lo, o marquês, e ele lá vinha, de bilhete de Identidade em punho, pronto a emborcar mais um copo. Aqui está! Sabe ler? Alguns não sabiam mesmo e lá ouviam o marquês, em voz de falsete, mais que envinagrada ao fim do dia, impante, ler o seu próprio nome, já quase apagado de tantas vezes ser mostrado com mãos suadas e avinhadas.
E muito respeitinho, dizia ele a brincar! Mas logo um se ausentava, quando havia copofonistas novos, para ir chamar o Higino, que morava na Travessa do Cego, juntando-se ao Francisco e ao Craveiro que já lá estavam e o Lopes que, do prédio em frente, assistia à reunião.
Quando o grupo estava reunido, o Sebastião José de Carvalho e Mello, agora fora do protagonismo, divertia-se, atirando em jeito de provocação, que eram precisos quatro bêbedos para formarem o presidente da República, que nada de jeito fazia e ele sozinho representava o Marquês que de Lisboa tudo fez!
O presidente “eleito” era então o general Francisco Higino Craveiro Lopes e que os fregueses da tasca da viúva, quatro deles, o Lopes tinha-se juntado à reunião, juntavam os nomes aos copos e alí tínhamos o presidente de então e o Marquês, em franca cavaqueira de taberna, duzentos anos volvidos.
E até ao fecho da tasca ali tínhamos o presidente em exercício e o Marquês em “carne e osso”, mais osso que carne, já que o Sebastião era fracote de carnes. De língua, sim, era um espanto!
IV
As birras do Afonso, o neto da viúva da taberna eram frequentes, certamente só agravadas, aos olhos de pedopsiquiatras de então e outros especialistas da área da miudagem, mas nunca a avó, farta de aturar outras de tudo o que era bêbedo e outros conflituosos (a tasca não é propriamente uma igreja e o facto de ao lado morarem os seminaristas não lhe traziam qualquer protecção), foi capaz de lidar com as birras do neto ou com elas pactuar. Ele, inicialmente com linguagem normal, pedia qualquer coisa que lhe vinha à ideia, depois exigia-a aos gritos quando a avó lha recusava; o Afonso fazia cenas de teatro, gritadas a maioria das vezes, só para chatear a avó.
A pior a que assisti, eu e vizinhança mais próxima e que era quase toda a rua, teve a ver com um combóio que a avó lhe comprou, só que não era aquele que o Afonso queria; ele queria um a pilhas, três ou quatro vezes mais caro e que a avó se recusava a dar-lhe. O Afonso gritava que não era aquele que queria e a avó gritava que nem que a matassem lho dava, ele atirava-se para o alcatrão da rua a espernear, enfim uma cena de pôr os nervos em franja!
As varandas e janelas das redondezas estavam já ocupadas por mirones, em algumas se juntavam dois e três a assistirem ao espectáculo de rua.
Alguns minutos se passaram e já tudo comentava e criticava, uns tomando o partido da avó, outros o do Afonso, mas a cena parecia não ter fim!
Vimos sair da camarata dos seminaristas um dos que antes esteve numa das janelas com varanda a assistir e, dirigindo-se ao Afonso que na rua esperneava e um táxi buzinava para passar o que ainda mais confusão criava, pegou-lhe num braço ajudou-o a pôr-se em pé, colocando-se de cócoras junto ao Afonso e passando-lhe um braço pelos ombros, segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido, ouvindo-se apenas a parte final: “percebeste?” e o Afonso sem piar acenou que sim.
O seminarista voltou à camarata e o Afonso, de cabeça baixa, caminhava vagarosamente para junto da avó a quem disse que antes queria aquele comboio que a avó lhe tinha dado.
Assistência em pasmo! Sussurravam uns “é preciso saber lidar com os miúdos; outros cochichavam que os padres, mesmo que ainda o não fossem, devem ter o dom de acalmar os violentos. Uma panóplia de comentários, na generalidade favoráveis à atitude calmante do “padre” sobre o Afonso.
Da mesma forma discreta como entrou em cena o seminarista, assim regressou aos bastidores daquele teatro vivíssimo que era a Rua dos Prazeres.
Aos sussurrantes comentadores, passado o tempo do espanto, veio logo o da curiosidade e foram-se chegando para a porta da tasca onde o Afonso, contrariado, ou em linguagem adulta, vencido mas não convencido, ia olhando para o combóio, mais que amolgado de tanto pontapé ter levado antes da intervenção do futuro padre. A avó, grata pela “deixa” imprevista do futuro prelado, mas também curiosa, perguntou ao Afonso o que o senhor lhe tinha dito ou prometido para ele passar a aceitar o combóio rejeitado?
- Disse que ou eu aceitava este combóio e parava com a birra ou levava um par de estaladas de que nunca mais me esqueceria! Confessou o Afonso.
Todos, sem excepção, riram com vontade, muitos deles tapando a boca ou para abafar a gargalhada que se antevia sonora, ou então para o pessoal não ver aquela gruta onde poucos dentes havia e que falta não faziam para emborcar copos de tinto.
Quem continuava a achar graça era o assustado Afonso, que deve recordar hoje, como eu recordo, aquela aula de eficaz pedagogia que recebeu em plena rua dos Prazeres.
O Lóró, que também assistiu a todo o espectáculo da entrada do condomínio, atirou com duas ou três asneiras bem sonantes, ouvindo dos mais velhos a ameaça de que um dia destes chamavam o seminarista para lhe meter a língua na linha!
- Eu mando-o logo p’ró caralho! Responde o Lóró a caminho de casa, acompanhado de uma outra sonora gargalhada da avinhada assistência.
Mal ele sabia que, poucas semanas mais tarde, teria de enfrentar, não aquele candidato a padre, mas outro, já formado, que o iria baptizar.
Os pais do Loró, por qualquer razão que não conheço, decidiram iniciar o miúdo, agora com cinco anos, nas boas e santas práticas cristãs, com o primeiro dos sacramentos, o baptismo.
Quando o marcado dia chegou, todos aperaltados, pais padrinhos e convidados, sobretudo o Loró, habituado a correr a “Via sacra” do páteo, Rua dos Prazeres e periferia, sempre de pés descalços, estava hoje de domingo vestido e calçado a rigor! Mas alegre não estava, bem pelo contrário e é fácil imaginar porquê, aperreado dentro daquela farpela que nunca usara e pés enjaulados nuns sapatos que lhe roubaram toda a liberdade!
Entre o espanto e a curiosidade lá subiram a Rua da Imprensa Nacional até à igreja de S. Mamede, penso ser este o seu nome, situada no inicio da Rua daquele santo nome, que parte da Rua da Escola Politécnica e vai encontrar-se com a Rua do Salitre, fazendo ambas, de “mãos” dadas o resto do percurso até à Avenida da Liberdade.
Tudo anormal, mas aparentando normalidade. Os pais, apreensivos, mesmo depois do curso de formação ministrado ao Loró, com várias disciplinas de recomendações várias, só não havendo ensaios prévios por falta de disponibilidade do protagonista, sempre ocupado a aprender como se vive.
O senhor padre vai fazer mais ou menos assim: dizer umas orações, desenhar-te na testa uma cruz com óleo, na língua uma pitada de sal…! Faça o que fizer, reforçava a mãe, não digas nada, pelo amor de Deus!
Desconfiado, o Loró a tudo acenou sim, com a cabeça.
Só que, nestas coisas, como em tantas outras na vida, algo fica por dizer nalguns casos e por aprender na maioria deles, ou por falta de experiência dos dizentes ou incapacidade dos ouvintes e o inesperado, no momento certo, sucede, exactamente quando menos se espera.
O Loró aceitou, sem o mínimo gesto de rebelião, a unção do santos óleos, o sal da vida fê-lo olhar de lado; às orações não ligou, as que ele sabia, de cor e salteadas, eram outras, que ele recitava com entoações de vários matizes, aprendidas naquele microcosmos do pátio e cercanias.
Até acedeu, sem protestar, a debruçar-se sobre a pia baptismal, tentando perceber o que estava ou iria passar-se, pois não recordava aquele pormenor ter sido incluído no curso de formação pré-baptismal. A mãe ficou inquieta!
Eis que a fria água-benta o atinge como um raio! Deu um safanão, endireitando-se e ao mesmo tempo que procurava libertar-se das mãos que o amparavam, atirou pelo ar a concha de prata que o pároco usara, a baixela e os santos óleos evadiram-se das mãos do sacristão, e um grito de revolta se fez ouvir:
- Então este caralho está a botar-me água fria na cabeça! E fugiu igreja pela porta da igreja!
Enquanto a mãe corria atrás do Loró, na assistência via-se gente a tapar a boca, tentando suster a gargalhada e outra em passo acelerado em direção à porta, não à procura do Loró que já devia descer a Rua Nova de S. Mamede, enquanto junto à pia um paramentado “João Baptista” de boca aberta de espanto e em silêncio, talvez a pensar no longínquo rio Jordão, onde Jesus fora batizado.
Reis Caçote
1998
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08/07/18
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