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DORMIR COM ESTRANHOS




DORMIR COM ESTRANHOS

…Algumas consequências…!

Há duas noites atrás, de madrugada, não sei a que horas exactamente, acordei sobressaltado, no meio de uma confusão de vozes gritadas, em várias línguas e tons, na obscuridade do meu quarto.
Eram pessoas de que só conhecia o nome e uma ou outra fotografia, não convocadas para qualquer debate ou serão de convívio, são coisas que no meu espaço de dormir nunca faço, muito menos a altas horas da noite.
Todos se queriam fazer ao mesmo tempo, sem respeito pelas mais elementares regras “democráticas”, cientes cada um das suas razões, mais que justas quase de certeza, mas que só conseguiam deixar-me em pânico e alvoroçar o prédio inteiro!
A Lídia Jorge, empunhando o seu último romance “Combateremos a Sombra” a insurgir-se, vigorosamente, contra o alto tráfico de drogas e suas máfias assassinas;
O William Faulkner com o seu “O Som e a Fúria” a esgrimir, com seus monólogos inconsequentes, um pouco desfasado no tempo e no contexto;
A Maria Gabriela Llansol, erguendo o seu “Curso de silêncio de 2004, “Amigo e Amiga”, de certo modo se convencendo cada vez mais de que os seus argumentos não calavam a guerra instalada na noite e sobretudo na vida;
O Gilles Châtelet fustigava todos com o seu bastão em forma de livro “Vivermos e Pensarmos como PORCOS” e a gritar, num francês pouco viril, que as culpadas de tudo eram a globalização-mercantil e as democracias-mercado e que os outros quatro, e eu, como testemunha, éramos, nem mais nem menos, do que “cidadãos-paineleiros”, marionetas de “economistas-politólogos” que, em nome da “Mão Invisível”, estão a gerir o mundo;
O Fernando Nobre, cada vez mais exaltado, zurzia a esmo os restantes, com o seu último título “GRITOS contra a Indiferença”, repetindo em cada grito o que aquela gente toda sabe, mas não liga, a tal indiferença contra quem grita, insistindo se não sabem que o único ministério que não foi arrasado no Iraque, foi exactamente o do petróleo e que os Jardins Suspensos estavam ocupados por tanques e…falta-me a voz;
Lá fora, no espaço amplo do patamar da escada, ouviam-se já os protestos da vizinhança:
- Mas onde nós viemos meter-nos, diziam os mais recentes condóminos, enquanto os mais antigos, sem grande convicção, lá iam dizendo: “tem sido tão bom vizinho! O que se terá passado?!
- Que raio de gente será esta?! E todos na mesma única cama!
- Que grande orgia deve ter sido antes de se desentenderem!
- Gostava de ir lá dentro espreitar, dizia a vizinha do primeiro andar!
O único que se não ouvia, penso que assaltado pela lembrança do que escreveu no seu “Eu não sou eu, evidentemente” era o Gonzalo Torrente Ballester, abraçando o volume contra o peito, receando certamente que algum dos exaltados o acusasse de ser ele mesmo e que acabasse com as dúvidas!
Pareceu-me ouvir bater à porta e logo as pancadas foram mais violentas!
Premi o interruptor, abri os olhos e reparei que aa meu lado tudo estava mais ou menos como deixara quando apaguei a luz para dormir, apenas os livros espalhados e um deles, os GRITOS do doutor Nobre, à beira da cama, quase a estatelar-se no chão.
Respirei fundo…! Que alivio, pensei.
Na escada tudo estava calmo e só um rouxinol, que todos os anos insiste em pernoitar no alto loureiro mesmo em frente à janela do quarto, deve ter acordado com o clarão da luz acesa e iniciou um trinado ensonado que logo a noite abafou.
Só ao longe se ouviam os miados ameaçadores de dois gatos no cio!


Reis Caçote
Set/2007
FotoFotoFoto
08/07/18
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