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ATÉ CHULO, JÁ FUI





“ATÉ CHULO JÁ FUI”

Encontrámo-nos quase vinte anos passados sobre o regresso de Angola! Acidentalmente! Um pouco como tínhamos decidido fazer durante aquele período de vinte e sete meses ali passado, iríamos encontrar-nos, ou não, um dia, fortuitamente como nos tínhamos encontrado antes de para lá partirmos, em final de Junho de 1961.
Durante aqueles vinte e sete meses, eu estive sempre em Luanda e ele apenas de lá saiu duas vezes e por pouco tempo: em Setembro, dois meses após a chegada, foi chamado a integrar, em destacamento, por doença de um camarada daquela unidade, a bateria de artilharia 147, onde permaneceu vinte e seis dias, participando naquela que então fora designada como a operação “Esmeralda”, a da ocupação da Pedra Verde; a segunda saída foi a um de Dezembro do mesmo ano, por uma noite, para fazer o reabastecimento de munições de artilharia do Grafanil, Luanda para o Úcua, onde estivera já em Setembro.
Todo o restante tempo, Luanda foi um pouco de tudo para nós, bom e menos bom, tudo teve a ver com Luanda.
As datas antes referidas foram por ele fixadas durante o nosso acidental encontro em Lisboa, numa das mostras de material de campismo, na FIL.
Ele, como visitante pouco ou nada interessado, eu por dever profissional, que passei a ter cerca de dois anos depois do regresso de Angola e após dois empregos falhados: a importação e comercialização de material de campismo, à sociedade com um dos comuns amigos de Luanda, como eu residente, antes da ida e depois do regresso, no bairro do Restelo, em Lisboa.
Aproveitámos o tempo de que dispusemos a relembrar algumas das mais interessantes situações ocorridas naquela época e do que se passou após o regresso a Portugal.
Apenas um pormenor que me parece de interesse para melhor enquadramento: ele regressou em Outubro com o grosso do Pelotão de Comando e Serviços e as três baterias; eu, com o tenente e tesoureiro e o alferes e o furriel da contabilidade, ficámos cerca de dois meses mais: os da contabilidade para encerrarem as contas e nós, os da tesouraria, para fazermos a transferência dos materiais e equipamentos e encerrar as contas também.
Ele quis saber se eu não tinha pensado ficar em Luanda, uma vez que o namoro parecia estar a correr bem e empregos não faltavam. Sem grandes pormenores respondi que estive indeciso, tanto mais que no “Puto” (era assim designado, correntemente, Portugal) não tinha nada em vista, embora soubesse que era o que cá não faltava era oferta de trabalho, devido às diversas guerras em curso, envolvendo mais de duas centenas de milhares de jovens e a hemorragia maior, a emigração, estava a provocar o esvaziamento. De qualquer modo sempre teria que vir, pelo menos para estar algum tempo com a família. Vim e fiquei, em parte influenciado pelos meus pais.
Os dois empregos ensaiados, ambos em escritórios de empresas de contabilidade, duraram pouco, por falta de gosto pelo trabalho e de incentivos também.
A saída, que ainda hoje se mantém, foi a do comércio. Sem dar para fazer fortuna, vai proporcionando alguma estabilidade financeira e permitindo que à família não faltem os meios indispensáveis e algum desafogo!
E já que abordo a questão da família, casei logo que me estabeleci, a mulher é professora e temos dois filhos, um casal, já crescidotes.
E tu, como tem sido a tua vida? Que não voltaste a Luanda, pelo menos nos dois meses seguintes, como pensavas, já eu sei!
- E não voltei mais, embora o tenha tentado logo a seguir ao 25 de Abril, mas não se concretizou.
Casaste?
- Sim, casei, logo dois meses depois de ter chegado, tenho dois filhos, também um casal; trabalhei os primeiros seis anos no Tribunal Judicial de Leiria, ligado ao Ministério Público e depois numa empresa de plásticos, onde ainda estou, tendo feito uma ponte de dez meses para uma incursão pela radiologia, experiência sem marcos de referência!
O costume, continuas a ser o baterista da vida!
- É verdade, só assim me sinto bem! As coisas cansam-me a partir do momento em que as aprendo e entram na rotina; em vez de tirar partido do já sabido tento logo saltar para nova experiência! Só me seduzem enquanto em “construção” ou possibilidade de as alterar.
- No meio desta confusão toda e a título de brincadeira, até “chulo” já fui, ou por isso passei, durante dois minutos!
Essa não, não acredito…! Conta lá essa cena, porque deve valer a pena!
- Bem, eu disse a título de brincadeira!
Conta, conta, porra, que isto são só novidades! Só mesmo tu!
- Então foi assim: como sabes o governo de então, logo a seguir à nossa chegada a Angola, acabou coma profissão de prostituta, considerando a prática condenável e ilegal, aquilo que era uma profissão legal e com carteira profissional!
Sim, recordo-me, deve ter sido em 1962 se bem me lembro!
- Eu, como deves recordar, vivi em Lisboa dos treze aos vinte e um anos; conheci relativamente bem a cidade, não tão bem o bairro onde tu moravas, o do Restelo, embora tivesse, durante alguns meses, contactos quase diários com a parte norte, a das vivendas, onde trabalhou uma das primeiras namoradas.
- Mas os bairros típicos, especialmente o Bairro Alto, conhecia-o bem, pelos motivos que deves calcular e onde o fado se cantava em vários locais que eu frequentava.
- Como te cheguei a contar e te apercebeste disso em Luanda, sempre tive curiosidade de ver como mudavam os locais onde iria circular! Só mesmo curiosidade, não por outro motivo.
- Quando um dia à noite, passava numa das ruas do dito bairro, sou abordado por uma mulher que logo me pareceu, pelo seu comportamento, estar a exercer a profissão na clandestinidade e que, como início de conversa, me perguntou se andava à procura de companhia, ao que respondi: nem por isso! Mas logo adiantou, como que a tranquilizar-me e não perder a oportunidade e que depois percebi; “olhe, faça-me um favorzinho, aquele tipo lá adiante quer que eu durma com ele esta noite e eu para fazer render o peixe disse-lhe que tinha de perguntar ao meu homem! Como não tenho homem nenhum, assim que o vi ocorreu-me que poderia servir para os fins em vista e disse-lhe que o meu homem era você, sem outra intenção que não seja para fixar o preço que vou cobrar!
- Só a muito custo contive uma gargalhada pelo insólito do que me sucedia, mas lá consegui aguentar e não estragar o negócio iniciado pela rapariga! Mas ri baixinho, enquanto ela avançava em direcção ao cliente que a esperava uns cinquenta metros mais adiante! Continuei a rir baixinho e mentalmente lhe desejei uma boa noite, sem incidentes! Fiquei espantado pela capacidade inventiva destas pessoas para o dezenrascanso e de certo modo invejei-os!
- E assim fui, durante cerca de dois ou três minutos, para o manfio que a aguardava, o chulo da sua companhia daquela noite!
Não mudas, pelos vistos! És como o para-raios, atrais as coisas mais brilhantes, mas também as mais bizarras!
- E para que mudar, não achas? Para me transformar num chato?! Prefiro continuar assim!
Temos que voltar a encontrar-nos em breve e com tempo para nova conversa, se possível mais longa e em local mais tranquilo do que esta feira de loucos!
- Farei o possível, mas sabes que não me comprometo!
Sei, nunca o esqueci! Até um dia!
- Bons negócios!
Boa viagem, amigo!

Reis Caçote
1998
FotoFotoFoto
08/07/18
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