A DECISÃO DE ESCREVER SOBRE MIM, MINHAS ANDANÇAS, MEUS ESPAÇOS DE VIDA, MINHAS GENTES, MINHA ALDEIA E OUTRAS, CIDADES OU VILAS, MINHAS ALEGRIAS E ALGUMAS TRISTEZAS, QUEM FOI MARCANDO OS PASSOS DO TEMPO E INFLUENCIANDO CADA UM DOS PASSOS ANDADOS, FOI UMA CRIATURA QUE TODA ATERNURA DEVIA SER-LHE DEDICADA: A ROSINHA !
INICIO DA PROSA
VÃO SER DIGITADOS OS
CONTOS
1 - A ROSINHA
Há alguns anos, pelo
menos três, que eu não via a Rosinha! Não por morar longe dela agora, ou por
dela me ter esquecido! Amuado ou de relações cortadas muito menos!
Quando mudei de residência,
em Fevereiro de dois mil e quatro, da rua Latino Coelho para o largo Cândido
dos Reis, andava ela, a Rosinha, enamorada não direi, mas de facto interessada,
o mais certo será dizer preocupada, com o Elvis. Este devia estar a atravessar
a sua fase de afirmação ou delimitação de espaço, ou território para ser mais
específico, ou certamente ambas em simultâneo; o certo é que me recebia, o
Elvis, duma forma pouco “elegante”, usando um tom de voz que, não sendo
agressiva, era no mínimo de irritação!
Estava no seu direito.
Não me conhecia muito bem e a irritação que mostrava devia ser, penso eu,
devida à forma delicada, alegre, eufórica mesmo, como a Rosinha sempre me
recebia! E como ele não estaria de acordo, talvez por a achar excessiva, isto
sou eu a pensar por ele, adotava esse comportamento que se assemelhava muito a
uma boa dose de ciúmes!
Ela, Rosinha, a seu
tempo, esclareceria o Elvis, se achasse necessário, de que ele não tinha razão
para tal comportamento, como se o amigo dela, eu, pudesse ser de algum modo um
hipotético concorrente dele!
Se o fez e o terá ou
não convencido, confesso que nunca o cheguei a saber, mas o que posso afiançar
é que, esta ausência de quase três anos, nada teve a ver, nem com o
comportamento do Elvis, muito menos com medo de alguma reação violenta por
parte dele. Não é fácil explicar, coerentemente, determinadas atitudes de menos
consideração em relação àqueles que temos como amigos, caindo-se quase sempre
na “esfarrapada” desculpa “as amizades são mesmo assim, feitas de encontros e
de ausências”, ou então, como terá dito alguém de que nunca soube o nome “os
amigos são como estrelas, muitas vezes não as vemos, mas sabemos que estão lá…”
(citado de memória).
É verdade que, neste
espaço de três anos, passei lá, na rua Miguel Bombarda, algumas vezes, umas a
loja estava fechada e de outras a loja estava aberta, mas nem Rosinha nem Elvis
estavam, tinham ido dar um passeio.
E, assim, frouxamente,
fica explicada, mal explicada devo acrescentar, esta minha falta de
consideração com esta amiga, de todas a mais franca, frágil e delicada e da
mais expansiva demonstração de amizade! Merecia e merece bem mais esta amiga e
por isso terei que fazer a auto critica que se impõe: não sou melhor do que a
maioria e pior também.
Sei que estou perdoado,
como sempre estive convencido todo este decorrido tempo! E confesso que me
sinto bem, tranquilo mesmo e sem os atavismos inibidores da manutenção da nossa
amizade! Assim tivesse tal tranquilidade em relação a outras amizades, às quais
tenho dado mais atenção e que a Rosinha me fez perceber, mesmo sem nada dizer.
E por que penso,
melhor, por que sei que é assim? O último encontro foi por demais elucidativo,
tal foi a manifestação de alegria, comovendo-me até às lágrimas!
Eu devia ser capaz de
corresponder a tão exuberante e franca manifestação de alegria, mas a minha
timidez veio ao de cima enão fui capaz de participar por inteiro na “festa”.
Terei que me
penitenciar, mas sem a Rosinha saber.
II
A cidade, como tantas
outras, tinha, em adiantado estado de degradação e em alguns casos mesmo em
ruína, uma boa parte do agora chamado “centro histórico”; era pequeno, como
pequena era a cidade.
Aproveitando os fundos
da União Europeia, a partir da adesão em oitenta e seis, nomeadamente aquele que
dispunha de uma linha de financiamento destinada à recuperação de edifícios
degradados, a autarquia ter-se-á candidatado e terá visto aprovados diversos projetos
que foram sendo executados, mal ou bem, outros estão em curso e alguns irão
ficando piores do que estavam, pois todos os anos, implacavelmente, se vai
agravando o seu frágil equilíbrio e a ruína será inevitável.
Depois da primeira
experiência de alguns anos na área de hotelaria, tão acidental como todas as
anteriores ensaiadas, e foram várias ao longo de uma vida, sempre com total
abertura e curiosidade a novos saberes, uma segunda fase foi encetada e isso
implicava ter que procurar um espaço para morar, mais próximo do novo local de
trabalho. Assim vi a porta aberta à possibilidade de materializar uma antiga e
inexplicável vontade de um dia morar na zona antiga da cidade; este quase
desejo se acentuou desde que à cidade regressei, após a rotura com a empresa
onde trabalhei quase duas décadas e meia.
A ideia era mais
antiga, vinha dos tempos da adolescência e era Alfama que no início da década
de cinquenta me seduzia, mesmo que mal tinha chegado a Lisboa tenha sido Campo
de Ourique a dar-me guarida e na parte final Campolide, confinante com a zona
“fina” da parte alta da capital, a quem dediquei algumas páginas no espaço que
achei apropriado!
E, assim, comecei a
procurar os espaços para alugar. Havia bastantes, mas vi poucos. O espaço para
habitar, por qualquer razão não muito clara, logo difícil de explicar, tem tido
sempre um caracter provisório, não tendo que obedecer a padrões que a maioria
normalmente exige ou ambiciona, sem áreas inúteis, acima de tudo funcional,
onde caibam os bens necessários a um quotidiano, sem esbanjamento de espaço
supérfluo, que só acaba por dar trabalho, nomeadamente limpar.
Agradou-me, à primeira
vista, um espaço na Rua Latino Coelho, pela localização e, sobretudo, pela
assimetria do aproveitamento da área e menos do que a tal funcionalidade.
Não esperava que a
decisão tomada e que durou cerca de dois anos, pudesse vir a estar na origem de
uma série de acontecimentos, uns mais marcantes que outros, mas todos com uma
carga emotiva bastante, para justificarem a sua inclusão no que de positivo tem
o percurso de vida.
III
O espaço da referida
Latino Coelho, era distribuído por três planos de um edifício antigo que já
conhecia há anos: por ser local de exposição e venda do negócio de materiais em
palha e verga da proprietária, que era conhecida por cesteira devido ao produto
que foi em tempos o principal; cestos para a vindima, para transporte dos
produtos adquiridos no mercado, enfim, uma variedade de modelos e aplicações.
Mas também porque no prédio ao lado moraram duas amigas, que depois foram
habitar num outro apartamento, numa das freguesias da periferia, mas por
qualquer motivo a utilização do espaço comum não deu certa e uma delas voltou
ao anterior apartamento da Latino Coelho. Este edifício de que tenho estado a
falar fazia parte da mesma herança e, na partilha, coube ao filho da cabeça de
casal, a viúva, senhora na casa dos setenta anos. O filho, engenheiro, morava
com a família no Estoril, pessoa de que me não recordo de alguma vez ter visto.
O edifício onde morei
tinha e tem um rés-do-chão, com um espaço de geometria irregular, inclinado
para o lado da rua, formando um pequeno pátio onde o artesanato das vergas era
exposto.
O acesso ao primeiro
andar era feito por uma escadaria ao ar livre, mais larga no inicio e
estreitando conforme se aproximava, em meia espiral, da entrada para o primeiro
andar, formando um pequeno varandim, para o qual dão a porta de entrada e uma
janela.
Aquilo que foi antes a
casa de habitação familiar, foi transformado em três espaços distintos, numa
ânsia desmedida de rentabilizar até ao limite, o que foi uma única habitação,
já não habitada pelos herdeiros; assim foi dividido um espaço que seria
modesto, mas funcionando para uma família, em três que passaram a ser diminutos
e nada cómodos, nem sequer sendo equacionada a mudança do quadro eléctrico para
a fórmula do aumento da ocupação e consumo de energia. Esta falta de respeito
por quem tinha que utilizar os cubículos tinha como consequência a falta de
energia pelos cortes constantes devido à potência instalada não ter sido
alterada porque se o fosse a taxa a pagar seria maior.
A prática seguida pela
senhoria, negociante de feiras e mercados, ambos em decadência, não foi a
seguida pelo outro herdeiro, engenheiro, que não podia dar como desculpa
desconhecer a parte legal.
Mas isto são assuntos
de “lana-caprina”, que nada acrescentam ao que me propus tratar e apenas servem
para perder tempo em vez de avançar para aquele que foi o meu recanto de
habitação durante mais de dois anos.
Era o do lado direito,
composto por um corredor que era também cozinha, por isso tinha uma grande
lareira e boca de chaminé a condizer, entretanto transformada de modo a
suportar o fogão a gás. Tinha um frigorifico, uma mesa de cozinha em fórmica e
pernas tubulares, assim como os bancos, um móvel-prateleira e por cima,
pendurado na parede, um móvel a que vamos chamar de cristaleira, mas que era
mais prateleira se tivermos em conta que no móvel debaixo era para guardar os
apetrechos para cozinhar: os tachos e panelas e outros e no de cima era dos
pratos; esta devia ser a função, mas pouco servia por quase nada ter dentro!
Tinha também uma máquina de lavar, mas que mal tentei servir-me concluí que era
só máquina porque lavar não lavava.
Para abreviar, vamos
arranjar um atalho, com base na máquina de não lavar.
Como o País tinha obras
em curso de todos os tipos para “aproveitar” os fundos da CEE, ainda era o
tempo das vacas, gordas foram só para alguns, mas os emigrantes, sobretudo
Ucranianos e alguns Russos, chegaram em catadupa e iam ocupando os espaços
habitacionais disponíveis nas periferias das cidades e usados nos trabalhos que
mais mão de obra pediam: a construção civil. E assim foram sendo, criados
espaços para alojar tanta gente nova!
A minha senhoria estava
atenta a esta situação e talvez por isso me terá proposto o aluguer de um
quarto na casa que ela habitava, proposta que recusei liminarmente e só depois
alvitrou a de que tenho vindo a falar.
A sua má vontade contra
mim vem desde essa recusa e o ter retirado a máquina de lavar quase nova que
tinha visto quando visitei com ela o espaço, colocando outra em seu lugar era
retaliação; mas foi isso mesmo que me fez ficar mais tempo, nem sequer exigindo
o recibo da renda.
No corredor-cozinha
havia uma dispensa que, para gastar o menos possível, o “inventor” do novo
espaço meteu o chão, de mosaicos em plástico sobre um estrado por cima do que
existia antes, colocando a dispensa cerca de dez centímetros abaixo do nível do
chão do corredor!
A seguir à dispensa
havia uma escadaria em madeira, a fingir de Torre de Pisa, mas em madeira,
ameaçando ruir para dentro da dispensa, uma obra de carpintaria que faria
inveja aos mais ousados engenheiros! Dava acesso, a escada ao mais genial
espaço que era o senhorial quarto que eu ia ocupar, nascido daquilo que fora um
varandim como na época de nascimento do edifício se usava. O chão, em madeira
forro que, certamente por engano do fornecedor, chegou antes da de solho e como
não havia tempo a perder, nem faziam conta de ali dormirem, quer a senhoria,
quer o técnico, há que aplicar no chão madeira que era de forro.
Foi a coisa mais
perfeita que alguém terá criado, nem o Criador Universal teria tal inspiração,
porque ficou um pavimento musical, não era perfeito o conjunto, as notas eram
de invenção recente, soavam a portas a ranger na noite, dos filmes de suspense!
As paredes, nunca
cheguei a perceber de que materiais eram feitas e nem tentei averiguar por
recear que se mexesse podia estragar! Encostava-me, melhor, encostei-me a uma
delas sem querer e tudo aquilo rangeu e deslocou.
No cantinho, em frente
da porta de entrada no senhorial aposento, foi construída a casa de banho onde
nada sobrava, nem mesmo espaço! Couberam lá um pequenino lavatório, uma sanita
e um poliban de requintado gosto e com vista para a cidade uma diminuta janela,
estilo moderno, em caixilho de liga de alumínio, vidro martelado ou granitado,
de correr. Quando se queria abrir ficava só metade onde só cabia o tronco, mas
de lado. Dava para o telhado do edifício e por cima dele via-se uma paisagem de
encantar sobre a cidade, os telhados de dois ou três edifícios e lá muito mais
longe os da encosta por detrás do hotel Lis onde trabalhei cinco anos.
Em frente à porta do
quarto com vista panorâmica, foi construída uma escada, esta sim em material de
construção, para aceder ao terraço que era o estendal também, mas no apalavrado
contrato era usado também pela proprietária quando precisasse secar roupa.
Deste espaço, que era a cobertura do meu quarto e escada, se tinha uma vista
para o lado da cidade com alguma e durante o primeiro ano e meio, subindo dois
degraus para chegar a um pequeno varandim, avistava-se o castelo, a sua face
mais elegante com sua arcada que era a da alcáçova!
Durante ano e meio vivi
com a esperança de um dia ser surpreendido pelo estrondo da derrocada provocada
pelo deslizamento de um enorme penedo de material calcário, polido pelos anos,
que faz parte do monte no alto do qual o castelo foi erguido, mais de metade
emergindo do solo! Se o bloco um dia se deslocasse galgaria tudo o que tivesse
pela frente e só pararia ao meu colo se não pesasse várias toneladas. Não me
surpreendeu e fiquei sem essa esperança, mesmo que seja a última a morrer,
quando começou uma obra no prédio que vivia encostado ao onde eu morava e com
entrada pela rua que dá acesso ao terreiro, hoje Largo Cândido dos Reis,
acrescentando um andar sobre os que tina, que eram rés-do-chão e primeiro
andar!
O dono da obra que
raramente via, já com a obra acabada no que de paredes se tratava, apareceu,
talvez para ver o resultado do já feito, quando eu estava a ver a cidade e a
ausência do castelo e lhe dei conta da minha bizarra esperança de aparar o
enorme bloco em vertigem descomandada, em busca de estabilidade!
Do sério que ficou
inicialmente, mal se apercebeu que a minha seriedade era nenhuma, desfez-se em
simpatia: “ desculpe lá, mas não foi com má vontade contra o meu vizinho, nem
sequer pensei nisso, mas se tanto representa para si a vista do castelo e
sobretudo o poder abraçar um tão antigo pedregulho, eu mando deitar abaixo o
raio das paredes!”
Ficámos de bem os dois
quando eu lhe disse que talvez até passasse a dormir melhor, perdida que foi a
esperança fico com outra, a da segurança! E assim continuou a obra, bem
interessante quando acabou, com uma janela rasgada acima do muro do estendal,
coisa com a minha senhoria não concordou, por achar que aquelas janelas não
podiam ficar, mas dali lavei minhas mãos e pensei: entendam-se, eu já cedi a
minha esperança em troca de mais segurança.
O estendal que era de
uso comum de dois (não o gramatical comum aos dois géneros, como por exemplo
“rouxinol” porque nunca acharam bem que houvesse” rouxinola”) mas sim comum no
uso pelos dois, começou a ser usado, sem minha consulta, por uma amiga da
senhoria, sendo uma pessoa a passar pela minha cozinha e invejar a minha
luxuosa e bem acabada moradia! Como não gosto de ostentar a minha razoável
fortuna, comecei a pensar que teria de mudar para local onde desse menos nas
vistas.
E assim terminou a
minha experiência da Rua Latino Coelho.
IV
Durante este atribulado
período, correspondendo ao “segundo andamento” da sinfonia sem fôlego que foi e
está sendo o ensaio na hotelaria, onde algumas novas amizades surgiram e
outras, naturalmente, foram interrompidas por falta de contacto. O normal, ao
que sei, na rotina da vida de muitas pessoas; de todas as pessoas, ditas
normais, na minha não, normal também, porque raramente fica como está, à minha
passagem, o quotidiano que me cerca. Não por deliberada intenção, mas os
eventos sucedem e sucedem-se, algumas vezes a ritmos alucinantes, sem que tenha
feito uma antecipada preparação e por isso se tornam caóticos, por vezes quase
incontroláveis.
Entre as amizades
surgidas, uma merece destaque: a da Rosinha!
Da minha casa à dela
não seriam mais de cinquenta metros a distância. Por lá tinha que passar, por
ser o mais pequeno percurso para chegar à Praça onde habitualmente tomava café,
por vezes lia o jornal e cavaqueava com alguns conhecidos, ávidos de novidades
de última hora.
Inadvertidamente ganhei
o hábito de trazer na mão, normalmente na direita, o porta-chaves que, por ser
metálico, como o eram as chaves, me deve transmitir, sem que de tal me
aperceba, alguma sensação agradável e relaxante, sofrendo, sem que o saiba, de
alguma psicose não muito clara, tal como alguns oradores sofrem, quando em público
não sabem o que fazer das mãos, fazendo figuras que chegam a enervar mesmo
aqueles que os querem ouvir. Esta é uma daquelas explicações que nada explica,
mas também já se tornou um hábito quando não encontro maneira de,
racionalmente, explicar os meus defeitos.
Não será bem isto que
sinto com as chaves. É mais a presença de algo que, sobretudo, me faz
companhia; tal como uns óculos de sol, uma pastilha elástica ou um cigarro,
hábito este que já não tenho e a pastilha nunca fez parte deles.
Isto para abordar uma
das facetas do comportamento da Rosinha, que devia possuir um apuradíssimo
sentido auditivo, a ponto de se aperceber da minha aproximação, mal eu dobrava
a esquina da rua Miguel Bombarda, deixando para trás a Praça Rodrigues Lobo.
Mal me via ao fundo da
rua disparava a correr ao meu encontro e numa comovedora manifestação de
alegria, que começou a despertar a curiosidade e alguns comentários da
vizinhança:
- Isso é que vai aí uma
paixoneta! Comentava uma das vizinhas dela.
Mas o que tinham era
inveja, disso não tenho dúvida, pois todos sabiam que eu lhe não oferecia mais
do que retribuir aquela amizade, sempre menos exuberante do que aquela que a
Rosinha me prodigalizava.
A rua Miguel Bombarda
estava condicionada ao trânsito, apenas funcionava para cargas e descargas e o
trânsito era num só sentido e poucas eram. Dos estabelecimentos a funcionar, exceto
o talho, o seu movimento comercial era pequeno, por terem clientela de hábitos selecionados
três deles e dois outros de antiguidades e uma pequena galeria de arte. Mesmo
assim comecei a temer pela segurança da Rosinha quando corria ao meu encontro,
já que podia surgir algum obstáculo que provocasse um acidente.
E a minha preocupação
tinha razão de ser, pois um dia em que estava ao colo da Teresa, saltou sem o
menor cuidado e deve ter-se magoado, pois se manifestou com a dor sentida, mas
tal não impediu de correr ao meu encontro, saltando e rebolando-se no chão, na
sua habitual e comovente manifestação de alegria.
A Rosinha, agora para
os que a não conhecem, é pequenina, de pêlo castanho-escuro na parte de cima e
mais claro nas pernas e barriga e tem uma franja que lhe cobre os olhos: é uma
Yorkshire terrier com pouco mais de dois quilos de peso e os donos (não gosto
mesmo nada do termo donos) têm uma loja, quase só de adornos, que alguns grupos
de jovens usam, à base de metais e algumas peças de roupa entre o roxo, o
vermelho e o preto, e que se designam por góticos, metálicos, punks, isto se
não erro muito e que têm uma componente musical distinta a cada um dos grupos.
Um desses
estabelecimentos era residência da Rosinha, apenas durante o dia, à noite
recolhia a casa que os donos habitavam e que nunca soube onde era, nem
perguntei! A Rosinha era parte integrante daquele espaço e ali era a minha
amiga que eu tanto admirava e estimava!
V
Aquele aparatoso
acidente atrás referido, saltando do colo da Teresa e se queixou, provocou em
mim uma sucessão de saltos mentais, no tempo e no espaço, que me levaram até ao
ano de sessenta e um do seculo vinte, a Luanda e outros que se seguiram, assim
como me trouxe recordações de situações em que nunca mais pensara por não terem
um fio condutor que as ligasse e que, uma vez feita a ligação, mereceram
registo escrito, na correspondência que então mantinha com Berlin.
VI
Os compromissos que a
vida nos vai rigorosamente impondo, raramente deixam o tempo indispensável e
atento para que, de cada passo dado, ou apenas esboçado, façamos um registo de
memorização. Mas não se perde tudo; a imagem apaga-se quase sempre, mas não é
raro ficar o negativo ou esboço mínimo que, uma vez estimulado por um reagente,
regressa a imagem quase tão nítida como a original.
O salto-queda da
Rosinha e a minha natural preocupação, trouxeram-me de imediato a recordação de
uma outra situação, ocorrida com uma criança de dois ou três anos, filha mais
velha de um casal amigo, onde íamos ver televisão, logo após o casamento; só um
ano ou dois passados é que comprámos essa ainda novidade.
A casa dos amigos
ficava ameio caminho entre a casa habitada quando casámos e a da minha sogra,
onde fazíamos as principais refeições nos primeiros meses que se seguiram ao
casamento.
Daquele que foi o meu
local de trabalho, durante seis anos, o trajecto mais curto de e para casa de
minha sogra, impunha a passagem à porta da nossa residência e também à porta da
casa do casal amigo.
Não me recordo de
alguma vez ter levado qualquer guloseima que pudesse ter estado, mesmo que em
parte, na origem da afeição que a pequenita me dedicou. Apenas brincava com ela
e raramente com o irmão, ainda bebé, recolhido quase sempre no seu berço-cama.
O certo é que, a partir
de dado momento, a pequenita, mesmo quando me via ao longe, se manifestava de
forma pouco comum, exuberante, rebolando-se pelo chão, tendo mesmo, uma das vezes,
ficado com escoriações na face e num dos braços! Esta atitude da menina começou
a fazer parte das minhas preocupações, certificando-me se ela estava à vista e
quando estava desviava o percurso de forma a não me ver.
Contei estas situações
aos pais e eles, brincando, diziam que tinha ali uma complicada paixão! Riam!
Com o nascimento da
nossa filha mudámos de casa. A pequenita cresceu e a “paixão” foi esmorecendo.
Os pais separaram-se
mais tarde, tal como o casal por mim formado. Durante vários anos não vi a
então pequenita que continuou a crescer e se foi tornando numa adolescente
encantadora e depois uma senhora, casou como a maioria faz, bem ou mal, não é o
que está em apreço agora, mas se divertia, quando nos encontrávamos, dizendo a
brincar, que eu fui o seu primeiro amor!
VII
Cheguei a Luanda, em
comissão de serviço obrigatório, nos primeiros dias de Julho de mil novecentos
e sessenta e um, juntando-me a milhares de outros que, desde Março ou Abril,
cumprindo a ordem do “depressa e em força para Angola” que um louco, mais um
que a história regista e que o cidadão não repudia definitivamente; todos
sabiam e o louco também, que desde há muito havia sublevações em vários pontos
da colónia, desorganizados ainda, mas muitos morrendo; como tinham prendido
alguns dos líderes devem ter admitido que a organização dos povos demoraria e a
rebelião de Fevereiro deve ter apanhado de surpresa alguns, mas todos sabiam
que um povo colonizado há quase cinco séculos um dia acabaria por rebelar-se!
Portugal era o único dos Países colonizadores que insistia, através da demente
ideia de manter um Portugal único e indivisível do Minho a Timor.
Juntei-me aos que já lá
estavam e eram muitos, mas muitos milhares foram chegando, por ar e por mar,
sobretudo por mar e este vaivém durou catorze anos consecutivos.
Muitos voltaram, alguns
deles com marcas físicas e/ou psíquicas, outros nem sequer voltaram, perdidos
para sempre na bruma matinal das florestas e na noite escura das cabeças que em
Portugal pensavam e das que lá cumpriam as ordens.
Não tardou que
Moçambique e depois Guiné, um pouco por todos os continentes onde o império
insistia em contrariar as leis naturais, dizendo-se “orgulhosamente só” naquela
voz beata que era a sua, cada vez que mais um País ia cortando relações
diplomáticas com Portugal ao não cumprir as decisões das Nações Unidas.
O exemplo recente da
Argélia, colonizada pela França e que após anos de batalhas, o colonizador teve
que reconhecer que não podia continuar uma guerra injusta e que a nada conduzia.
Salvo uma ou outra
pequena escaramuça na periferia, quase sempre devida ao excesso de álcool e que
a polícia aproveitava para descarregar seus rancores racistas, Luanda era um
espaço sem violência física. Muitos dos seus habitantes, temendo não sei bem o
quê, mas eles sabiam e não serei eu a julga-los, podia dizer-se que Luanda
estava quase deserta. Abandonaram a cidade e alguns bens, as casas, os carros,
eram os que mais davam nas vistas.
Para mim tudo era
novidade e que bela novidade! O espaço físico, o ambiente, a temperatura, mesmo
tendo chegado em plena época do cacimbo, assim designado o período de Junho a
Setembro, mais fresco e sem chuva, só densos mantos de neblina, o tal cacimbo,
predominavam.
As vivendas,
desabitadas, eram parte de uma quase global oferta imobiliária, que não era
aproveitada por qualquer militar, sobretudo solteiros e desenraizados como eu e
tantos outros, sempre sob a ameaça de na próxima semana avançarmos para a Zona
de Intervenção, da qual Luanda já fazia parte e todo o território a norte da
capital.
Enquanto se ia e não ia
para a tal Zona de Intervenção, eufemismo usado para designar áreas de conflito
aberto e perigoso, como seria fácil de concluir pela chegada frequente de
helicópteros ao Hospital Militar de Luanda, transportando macas até no exterior
dos gafanhotos, aforismo usado para os designar.
Dizia que naquele
vai-não-vai, o melhor era procurar solução para nos irmos instalando, sobretudo
a partir da primeira semana, quando o Pelotão de Comando e Serviços do qual eu
fazia parte, foi instalado nas instalações do aquartelamento do Grupo de
Artilharia de Campanha de Luanda (GACL).
Os três furriéis, todos
milicianos, Figueiredo, Magalhães e eu, encontrámos dormida, pensão e
tratamento de roupa no bairro da Maianga, cerca de duzentos metros abaixo da
entrada do GACL, onde o bairro de Alvalade, então quase só dunas e um ou dois
prédios em que a obra foi interrompida, terminava no Rio Seco, nome dado a uma
vala construída e que tinha a única função de drenar as águas das chuvas que
desciam, por vezes em catadupa, as dunas do Alvalade e da Maianga, este mais
plano e quase todo urbanizado e alcatroado.
Os pensionistas eram um
casal de Tomar, com dois filhos pequenos, que habitavam uma moradia de dois
pisos, próxima do chamado Rio Seco e já na “margem direita” deste e da estação
dos correios.
O espaço que nos foi
destinado e que antes seria a sala principal, tinha três camas individuais.
Mais ou menos dois
meses passados o Figueiredo saiu e foi morar no espaço onde estava instalado o
alferes Afonso, chefe da Contabilidade do Pelotão, das três baterias de
artilharia que faziam parte do Comando e de um esquadrão de cavalaria e outras
unidades, com quem o Figueiredo trabalhava diretamente e também um
primeiro-cabo. Tratavam ainda do envio para Portugal dos fundos das pensões que
a maior parte tinha fixado.
O Magalhães e um
primeiro-cabo estavam ligados à Tesouraria e gestão de armazéns diversos e o
chefe era o tenente Neta. O único que não dependia diretamente de alguém era
eu, por isso tinha a categoria de (deixem-me encher o peito de ar e bater uma
pala com todos os matadores), comandante da secção de reabastecimento de
munições, dependendo de mim seis motoristas.
O único que era da arma
de artilharia era eu e o Comandante do Grupo, o major Cunha Rodrigues; todos os
outros eram do Serviço de Amanuenses.
Com a saída do
Figueiredo a cama disponível passou a ser usada por militares que vinham
chegando, normalmente para substituir colegas que, ou tinham ferimentos de modo
a não voltarem às zonas de combate ou tivessem mesmo morrido, ficando em Luanda
a aguardar condições para chegarem à unidade. Só mais tarde se juntou, em
permanência, o furriel Pinto, amanuense também e do mesmo curso que o Magalhães
e Figueiredo, mudando connosco, mais tarde, para o cogumelo da Primeiro de
Maio.
Feita a minha grande
guerra em Setembro, entre Luanda e a Pedra Verde e o meu primeiro e último
abastecimento de munições no dia primeiro de Dezembro, o que foi, em mil
seiscentos e quarenta, da Restauração da Independência da Pátria do grande
império colonial, era altura de olhar para o tempo de Natal e apreciar como
seria no hemisfério Sul, com calor em vez de frio, com uma companhia diferente
de todos os outros anos e sem neve, nem inventada!
Quase no início também
apareceu na Maianga e se instalou em casa da dona Rosa um segundo sargento
baixote, moreno, na casa dos quarenta anos, natural do Algarve.
Sem grande dificuldade
alugara uma das muitas vivendas mobiladas que os jornais anunciavam
diariamente, para instalar a família que chegou cerca de uma semana antes do
Natal. A esposa e duas filhas, uma com a idade de dezoito anos e a outra com
dezasseis e que provisoriamente se instalaram com o sargento num dos quartos
que a hospedeira dona Rosa deve ter preparado como foi capaz, transitando ela e
família para o rés- do-chão. Aguardavam a chegada dos bens do casal que vinham
num outro navio que chegou logo de seguida.
Almoçávamos e
jantávamos juntos e nunca saíam à noite, por não conhecerem a cidade,
limitando-se a um passeio pelos arredores da Maianga.
Quando os bens da
família chegaram, eu e o Magalhães ajudámos na arrumação dos caixotes e malas.
E adeus, nosso primeiro
e família, passem bem e um bom Natal por terras de África, desejei-lhes eu um
pouco a sério e mais a brincar e eles, um pouco mais sérios se despediram,
retribuíram os votos de bom Natal para nós e pareceu-me ter visto lágrimas nos
olhos da filha mais nova.
Para a véspera de Natal
eu fui “cravado”, por um dos furriéis natural de Luanda, filho duma família que
não se escapuliu para Portugal ou um dos Países fronteiriços como tantos
fizeram, para lhe fazer o serviço de piquete para que estava escalado. Aceitei,
por achar que a mim nada perturbava por estar longe da família e ele sempre
podia aproveitar para fazer a consoada com a sua família.
O render da parada era
às treze horas e durava vinte e quatro horas. Lá estive, como tinha assumido,
uniformizado e pronto a fazer de duas em duas horas, uma ronda pela periferia
interior do quartel. Tinha combinado com o Magalhães que, se quisesse, depois
do jantar, aparecer no quartel, sempre beberíamos uma Cuca ou outra coisa, não
muita porque eu estava de serviço.
Ainda não seriam
dezoito horas quando pelos altifalantes chamaram o furriel Monteiro para
atender uma chamada. Fiquei espantado quando do outro lado da linha, a dona
Rosa me informava que a filha mais nova do sargento, que dois dias antes se
mudara para a nova residência, estava lá em casa e decidida a passar o Natal
comigo!
Só me faltava esta, oh
Dona Rosa!
- Como lhe disse que
estava de serviço, ela disse que ia ter consigo ao quartel! Adiantou a dona
Rosa.
Eu dentro de meia hora,
mais ou menos vou ai ter para tentar resolver esse sarilho.
- Agradecia, porque eu
não consigo demovê-la da intenção!
Não era difícil
arranjar alguém que me substituísse, desde que o oficial de dia aceitasse, pois
eram vários os sargentos que, numa situação transitória, usavam como dormitório
a caserna de sargentos.
Tinha reparado, sem lhe
atribuir qualquer significado especifico, durante os poucos dias que estivemos
todos na dona Rosa, que a mais nova das filhas do sargento me tratava com uma
delicadeza diferente da que tratava os outros, mas achava que tudo era normal,
por principio não uso segundas intenções em qualquer tipo de relacionamento,
seja com homens, seja com mulheres; reservas mentais não uso, mesmo que a
experiência me recomendasse algum rigor, face a algumas surpresas, quase todas
agradáveis, confesso, mas mesmo estas não me teriam surpreendido! Verdade que gosto
de surpreender e ser surpreendido, mas tudo deve ter os seus limites.
Aceite a troca pelo
oficial do dia, foi só entregar a Uzi e o cinturão e esperar que o sargento
levantasse o equipamento dele e um quarto de hora depois estava a descer pelo
carreiro da duna do Alvalade em direcção à Maianga.
Cumprimentei todos e em
particular fui conversar com a determinada adolescente. Como a não conseguisse
demover do intento, perguntei-lhe o que acharia ela e a família se eu e o
Magalhães, entretanto chegado, fôssemos acompanhá-la a casa e ceássemos com ela
e a família.
- Todos sabem que eu
vim aqui e vão ficar radiantes quando lá chegarmos! Garantiu, com alegria
estampada no rosto.
E lá passámos parte da
noite com a família que dias antes tinha chegado.
Ainda contactámos
várias vezes no ano seguinte, disse-lhe que tinha namorada, o tempo foi
esbatendo impulsos e a responsabilidade escolar ajudou.
Cerca de dois anos
depois eu regressaria a Portugal e ela terminaria o liceu, mas ficou a promessa
de nos mantermos em contacto, pelo menos uma vez por mês.
Já com a Universidade
de Luanda a funcionar, aluna do segundo ano da área de Antropologia e Relações
Internacionais, casou com um comerciante que eu conhecia.
O divórcio deu-se
alguns anos depois, passando ela a exercer uma catividade não revelada e que
obrigava a deslocações frequentes a vários países; notei que não iria dizer-me
com exactidão o que fazia, adotei o critério de manter tudo como sempre esteve,
um pouco à imagem da nossa invulgar e bela amizade.
Quando estava em
Portugal alguns dias que davam para nos encontrarmos, sempre o fazíamos.
Aquilo que mais nos
terá definido como cúmplices duma idade que não muda, foi o acordo que fizemos
e que tinha a ver com a comemoração do seu quadragésimo aniversário.
Foi quase a repetição
da situação da véspera de Natal em Luanda, no ano de sessenta e um:
telefonou-me a informar que estaria em Portugal por escassos dias, mas fazia
questão de comemorar os seus quarenta anos comigo, já que o Natal de sessenta e
um lho tinha recusado, disse a brincar!
O local a combinar, mas
que gostava que fosse aquele de que tínhamos já falado: Vila Nova de Mil
Fontes.
O encontro foi na
sexta-feira, fazia anos às duas da manhã de sábado. Alugámos um espaço
particular, sem outras pessoas a morar. Os quartos, dois, eram no primeiro e
último piso, ficando por nossa conta todo o fim-de-semana.
O tempo colaborou com
sol brilhante e quente durante o dia e as noites de uma temperatura agradável
para todas as iniciativas. E foram de deslumbramento, com a Lua a reflectir nas
aguas da enseada e nós no alto da falésia a falar de Luanda e do nosso sentido
de autonomia, que sempre respeitámos.
Vila Nova de Mil Fontes
seria o local da terra onde gostaria de estar ancorado e ali fazer o que mais
gosto: amar, escrever; amar, pintar; amar, ouvir boa música; amar, amar, amar
sempre e gozar da magia de um espaço privilegiado pela natureza e agora de
maior encanto por ter sido um lugar de eleição para outra invulgar amiga, onde
passou vários períodos de férias, inclusive no mesmo primeiro andar, só não
sendo certo que no mesmo quarto, na mesma cama em ferro, modelo antigo.
VIII
As alterações que
ocorreram em Abril de mil novecentos e setenta e quatro e setenta e cinco
criaram condições para as pessoas, antes mais ou menos isoladas, passarem a
conviver mais, socializando os comportamentos e predispondo a viver mais em
comunidade.
Surgiram as associações
de caracter profissional, cultural, politico, religioso, um pouco à maneira do
que já era conhecido nos países onde a democracia, mal ou menos mal, porque
bem…bem, deixemos para depois, ou como algum influente as ia sugerindo ou mesmo
impondo. Trouxeram as condições suficientes para que a generalidade das pessoas
sentisse uma maior abertura ao diálogo, um abrandar de tensões, um ambiente
mais agradável, que nem as crispações de final de setenta e cinco apagaram.
Numa dessas
associações, onde muitos participavam e se encontravam, fui conhecendo pessoas
que, morando na mesma cidade, nunca as tinha visto e muito menos falado e
criando laços de amizade que ainda hoje se mantêm nalguns casos.
A seguir aos
tumultuosos incidentes do Verão de setenta e cinco, em que a associação viu a
sua sede vandalizada, as pessoas voltaram a dispersar-se, mas encontravam
sempre uma forma, por vezes quase espontânea, de se juntarem, discutirem a
situação criada e a forma dela sair.
Não tinham ainda
decorrido dois anos quando nova sede foi encontrada, um amplo edifício da zona
histórica da cidade, onde um dos causídicos tinha o seu escritório e que foi
também vítima do vandalismo já antes referido, cedido à associação em
excelentes condições.
Vinda da margem Sul do
Tejo, da cidade de Setúbal, chegou a pessoa que dispunha de condições para
dinamizar o novo e enorme espaço, a ele dedicando todo o seu tempo e saber.
As novas condições
mobilizaram os amigos para voltarem a juntar-se e muitos outros se foram
juntando, dando ao espaço uma vida social que nunca tivera antes.
Entre as novas pessoas
chegou uma professora do ensino secundário, lecionando geografia, mãe solteira
que, com alguma regularidade, coincidindo com as férias mais alargadas, trazia
a filha, de uns cinco anos, vinda de Braga onde vivia com os avós, trajando uma
sainha de pregas que a transformava numa boneca que, pela sua simpatia e
graciosidade, todos queriam cativar.
Por qualquer razão que
sei explicar a pequenita simpatizou comigo e tentava mobilizar-me, talvez por
eu apoiar e incentivar as suas iniciativas e ela sentir que tinha espaço para
desenvolver a sua criatividade.
A pequenita, ao fim da
noite, mais que cansada, era o meu colo que ela procurava, se eu estivesse
presente, para o seu primeiro sono, até que a mãe a levava para casa.
A criança de então que
só nas férias aparecia, mal a mãe se fixou, já como efetiva, trouxe a filha,
aqui fazendo a primária e o liceu, passando para o novo Instituto, onde se
licenciou em línguas e administração.
Hoje é uma mulher,
pequena na altura, deixou-se engordar, mas o seu sorriso que parece ter feito
morada permanente nos seus lábios e olhos, acompanhado por duas covinhas
faciais são um encanto de simpatia.
IX
Alguns anos passados
sobre o Abril de setenta e quatro o meu amigo Adriano, formador e formando de
uma linguagem que só os surdos-mudos entendem, doente cardíaco há vários anos,
pai de duas meninas já às voltas com a escola, veio a falecer.
Eu era visita frequente
da casa deles, que ficava no trajecto entre a minha casa e a sede da
associação.
A filha mais nova, a
Ana, nasceu com um problema de formação, que consistia numa abertura no
céu-da-boca que era um problema, para a criança por ter sido sujeita a várias
intervenções sem que fossem obtidos resultados eficazes e para os pais por
acompanharem o sofrimento da filha e gastarem mais do que tinham.
Foi a equipa de cirurgia
que deu como terminada a sua capacidade de melhores resultados obter, ficando a
Ana com uma pequena alteração externa do lábio superior, mas o mais complicado
está na fala, sempre nasalada. É mãe de duas crianças, neste tempo da
narrativa.
A outra irmã, uns dois
anos mais velha, espertíssima e duma alegria contagiante, contrastando com o ar
calmo e de pouca alegria. Escrevia bem e muito, sobretudo poesia, penso que
grandemente influenciada pela Florbela Espanca, tendência que se terá acentuado
com a morte do Adriano.
Nunca percebi muito bem
porquê, mas a certa altura reparei que a miúda, ou porque gostava da minha
presença ou porque gostava de me ver a conversar com a mãe, numa altura em que
ambos estávamos sós, eu separado há alguns anos. Não sei nem irei saber e para
a narrativa nada traria de melhoria, há momentos da escrita que não se dão bem
com a ficção.
Fomos vezes sem conta
todos juntos ao cinema, numa pequena sala que funcionava junto ao Bingo e hoje
é a casa de oração ou igreja, não sei como é designado corretamente, da Igreja
Universal do Reino de Deus.
Continuamos a ser
amigos e as filhas também, a mais velha, licenciada em economia, fixada em
Lisboa, onde trabalha e a Ana trabalha, quando consegue, em Leiria.
Não conheço a
totalidade do seu trabalho poético, apenas me deixou ler, penso que só para ser
simpática, uns quantos ainda antes da minha fixação na Marinha Grande.
X
Em jeito de conclusão e
resumida síntese, registarei que a queda aparatosa da Rosinha, a Yorkshire da
Miguel Bombarda, saltando do colo da dona para correr ao meu encontro mal saí
da Rodrigues Lobo, veio a despertar-me, inevitavelmente, para esta série de
pequenas coincidências, mas que representam um vasto leque de interpretações,
sem conclusões razoáveis, pois outro ponto em comum não havia, além do nome
entre todas as intervenientes, pequenas e grandes, que se foram situando no
percurso duma vida, bem irregular, elas com papeis tão diversos, mas todos de
grande beleza:
- A miúda da noite de
Natal de sessenta e um em Luanda, amizade que ela fez questão de manter viva
até ao limite, sempre que as condições lho permitissem;
- A pequenita que se
manifestava de forma tão exuberante, ao ponte de se ferir e alterar meu
percurso para evitar que me visse quando na rua brincava;
- A pequenita de Braga,
hoje mulher, licenciada e a leccionar, com o sorriso mais cativante que alguma
vez vi;
- A filha mais velha do
Adriano que, sem que alguma vez o dissesse, sempre gostou de me ter perto ou da
mãe, não sei; também ela licenciada e a trabalhar, mantendo aquele sorriso
aberto e franco que sabe tão bem;
- Por fim a especial
amiga de tantas coincidências, que nem a parapsicologia teve resposta séria,
pois outra não permitiria.
A primeira foi sempre
como um cometa, sem regra, que só aparecia de tempos-a-tempos e sem aviso
prévio; a última é a que nunca entenderei e que me tem proporcionado momentos
de muita beleza, viagens que jamais pensei fazer e um campo fértil para a
criatividade e não pouca vaidade!
- Dedique-se à escrita
que é o que você faz bem; não disse: deixe de pintar, apenas por cortesia.
Só que eu, querida
Amiga, para que um dia possas entender, não costuma fazer coisas para depois
agradarem a alguém; o meu narcisismo, que me recuso a admitir, vai ao ponto de
me pressionar a fazer, sobretudo, o que a mim vai dando algum prazer! E vou
continuar “até que a mão me doa”, como a Maria da Fé, fadistava “ Cantarei até
que a voz me doa” (desculpai este pequeno atrevimento de comparação!)
XI
A primeira e única vez
que fui a Berlin, a convite da última das Susanas, que entretanto mudou para o
Sul da grande Alemanha por motivos profissionais, não dela, mas do companheiro,
foi para celebrar com eles e muitos outros, o seu quadragésimo aniversário;
isto sucedeu em dois mil e cinco e logo dois anos depois fui estar com eles, em
Heidenheim, e daí para cá tem sido quase todos os anos, outras vezes são eles
ou ela só que vêm a Portugal, espreitar uns raios de Sol brilhante e quente,
que é o que mais falta notará lá no país dos doges.
Em Berlin deixou, a
contas com a vida universitária (como o tempo passa!) a Iris Margarida, sempre
um espanto de beleza e ternura e muitos outros valores que não serão aqui
mencionados, mas que ela sabe que os tem e eu, sempre que acho oportuno, não
regateio o elogio.
Ficou também, e aqui
regresso à Rosinha que catalisou este escrito e por isso é dela o título, para
recordar que com a Iris Margarida ficou a pequena Megi, mais clara de pelagem,
mas igualmente simpática, uma Yorkshiere talvez mais nova e que passou a
integrar e ligar o passado e o presente, afinal de contas, um intercâmbio
emocional entre Alemanha e Portugal.
Às duas, Rosinha e
Megi, estejam onde estiverem, terão sempre o meu apreço e gratidão, pois também
elas passaram a fazer parte deste registo mental que parece não ter fim.
Reis Caçote
2003/dig.01/03/14
VAMOS IMAGINAR A "ROSINHA" DESTA RAÇACENTRO HISTÓRICO DE LEIRIA(pormenor)
ADMITAMOS QUE ESTE SERIA O " ELVIS "FILHA DA ROSINHA



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